segunda-feira, agosto 28, 2006

Portugal em sombras

I - Idade dos Pais

Alma cruel porque insistes,
em vãs vitórias,
em famas de outrora
e que conseguiste?

Dos montes e dos vales, ouvem-se vozes tristes
cantando teu Fado...
aos mortos por ti esventrados e
aos corpos exangues exumados,
de fogueiras vivas que à tua glória
se consagraram.

Vozes que ecoam no tempo da memória
a Ti te acusam,
dos medos e dos mundos que nos trouxeste.

Correste as sete partidas,
na esperança de um Mar,
soubeste fazer um barco, navegar.
Na fé que tinhas dos povos,
último rei de um mundo já o foste,
mas morrem ainda por lá os teus soldados.

II – Idade dos Filhos

Porque esperas que o cego
te dê o que já foi teu?
Nada te ensina
o caminho da morte
que percorres...?

No teu sangue,
ninguém vive, ninguém morre,
nem as nações que destruíste ou que criaste.
Nas tuas veias corre a poesia,
mas os Cravos que plantas na areia
(desta ocidental praia lusitana)
jamais partiram ou chegaram,
nem aquém, nem além da Taporbana.

Por te ocultas
em mitos e histórias de fadas
nem vives, nem nunca viverás!

E por isso foges do aqui
e do agora...
Do Quarto ao Terceiro, do Segundo ao Primeiro todos impérios
se desvanecem,
devorados em sangue, engolidos em carne viva
por esse ser estranho que é a História.
De que esperas para a Acontecer?

III – Idade dos Espectros

Na bruma e na névoa
sobram-nos mitos redivivos,
ficaram cadáveres semi-nus,
trazem respostas de papelão
ladainhas e mais sacas de carvão
há muitos fogos
para fazer antes que acordes.
Não te canses,
o destino espera-Te
e a morte sempre alcança essa espécie de Saudade.

Falta-nos a madeira ao veleiro,
pois que ainda saberás
o rumo da Nossa liberdade?


© Miguel Raimundo
(Viagem Coimbra-Santarém, Maio de 2001)

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