Na encruzilhada do amanhã fica a resposta,
se havemos de aqui ficar sob a borrasca
ou partir, como outrora, tendo o sol por horizonte.
(Nós, filhos mudos dos cravos por plantar.)
Quais Colombos, velhos lacraus, souberam manobrar
mundos e fundos, cheios de manhas, para nos enlear,
traíndo nosso povo, por pouco mais de trinta dinheiros,
sobre nós impõem a canga e os grilhões dos escravos que libertámos.
Da Europa, ensinou-nos o Pessoa, somos tão-só o olhar,
sobram em nós mundos sem fundo entre o aquém e o além dor,
sabermos ainda o caminho para além deste, daquele
ou de um qualquer outro Bojador?
Somos os olhos das crianças acercando-se do luar.
Em nosso sangue vivem gritos dos mortos
à mercê da roda do progresso,
em nossa alma permanece a esperança etérea da Idade da Paz.
Entre o Ir e o Voltar, ouve-se sempre a memória
dos filhos sem pai, das mães sem menino para afagar,
somos nossa Saudade eterna, forjada no fogo sem fim da viagem.
Estamos sempre de malas preparadas, à espera da hora certa para "dar o salto",
à espera do dia certo (que nunca vem) para escolher o barco.
Vagueia a alma portuguesa nos nossos rios ausentes,
(agora que nem somos um país)
Ouvindo-se entre a neblina, o sussurro antigo
do "nosso senhor dos profetas": vós pertenceis ao Mar!
Nestes montes e vales, nestas vilas e cidades,
perpassam-nos murmúrios da vontade de partir,
com medo, entredentes, alguns fantasmas gritam,
talvez insanos, a esperança de ficar,
Deste modo vário, sem se saber porquê,
vive nos corações da nossa gente
um não sei quê de Portugal,
quase como certeza de um outro país por inventar.
Santarém, 05/01/2012 - 17h/18h
© Miguel Raimundo
1 comentário:
a emigração pode ser muito dolorosa... triste, triste
beijo
Helena
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