© Miguel Raimundo
Templo de Diana, Évora 2008
Fotografia e arranjo de gráfico de José R. Noras
este espaço é só meu, por isso é de todos! E será sempre dos Outros que habitam em mim; tanto dos que inventei, como dos que morreram sem me conhecer, mas sobretudo dos amigos que vou conhecendo nestes mares da vida. Aqui só há uma lei: a ausência de quaisquer regras, sejam poéticas, artísticas, políticas, filosóficas ou teológicas. Aqui reecontro-me comigo e convosco a sós.
a L. Coen
auroras de paixão
no lusco-fusco
de um novo dia.
a marcha lenta
da vida
traz-nos em lume brando
o fim dos sonhos.
mas ainda
sozinhos e nus
resistem os amantes
neste horizonte,
buscando num começo
a miragem da ternura.
momento imaginado
traí a audácia
e a estratégia
soçobra na tranquilidade
das aparências.
mas ainda
famintos e rotos
os sonhadores
continuam para sempre
nesse caminho perdido
de outro mundo possível.
29/03/2008 (7h06)
(viagem Entroncamento/Santarém)
©Miguel Raimundo
Amor palácio encantado da ilusão,
da loucura desse Quental,
que ainda vive no seio
dos interstícios da razão?
Dor, baladas dessa Cabra,
que lembram o medo da prisão…
Revolta sob o secreto
e etéreo signo
da liberdade visceral,
desde do átomo
às chamas do sol em combustão,
ou às estrelas em explosão,
supernovas d’Evolução.
Filósofo sem o querer,
com o mesmo sem vontade,
que rompeste o útero
sagrado
de tua mãe,
consegues exprimir,
em pensamento
ânsias que me revolvem cá por dentro!
©Miguel Raimundo
2006-05-04 (16h40?)
Começos e recomeços,
sonhos transeuntes
e miragens que
me assaltam no
escuro das horas…
deixo sempre
a um canto
essas promessas adiadas
e tudo o que faço
e medito se queda
pela metade.
Nos tempos mortos
da insónia
exorta-me de novo
a vontade, a ânsia permanente
de perseguir
tua Imortalidade.
13-01-2008 (8h30) Santarém
© Miguel Raimundo
Embalado pelo mar
o enjoo desvanece,
lá ao fundo entre
a neblina
já ecoam os dizeres:
- "terra á vista"
(como quem diz,
"vida à vista é
bem hora de nasceres".)
"Vês aquele rochedo?
Ao lado está uma ilha" - conta o pai
ao menino frazino
e assustado
com as vagas no caminho.
Chegamos ao cais
e na nossa viagem
chegam os outros
que por aqui passam,
já que nunca se viaja
a sós.
Quietas no movimento
imagens de transeuntes,
obreiros e turistas,
povoam estas paragens
de ilhas ou de tormentas.
A nossa chegada é a partida
daqueles que cumprem seu destino.
A este vai vem constante
algum deus inconsciente
deu por nome:
vida.
Berlenga Grande, 13/08/2009 (18h01)
©Miguel Raimundo
À roda da mesa
juntaram-se as gentes
almoçando a vida,
com um pouco de pão.
— Passem mais vinho!
Gritam lá do fundo,
não é hora de sede,
nem tempo de solidão.
— Vai um picantezinho?
pergunta o vizinho,
que roda a malagueta
de mão-em-mão.
— Sim senhor, Ti Zé.
a saber a pimenta
a vida é mais doce.
E com outra pitada de sal
o corrupio dos dias
parece menos mal.
Outra asa de frango
e mais uma febra
a saltar na brasa,
meia dúzia de copos depois
engolimos alegrias, tristezas,
saudades e tudo.
— Ainda haverá espaço para
o cafezinho?
- Até outro dia compadre vizinho.
Aqui nesta mesa à roda da gente.
© Miguel Raimundo


desnascer,
a passo e passo
sentir o tempo no
seu anverso
no desenrolar das horas.
tanto a memória,
como angústia
subsistem
nessas vidas
que se encontram
a meio tempo,
tanto a dor
como a coragem
me conquistam
nesse mito
desatento.
uma vida ao contrário
num reverso de tempo
com promessas de sonhos
em ligeiros contratempos.
27/01/2009 (04h45), Santarém
Miguel Raimundo
© Miguel Raimundo
Santarém, 15/07/2008 (05h29)

A noite lenta
adormece-te.
a juventude,
a paixão,
essa vontade de
não sei quê
guardas tudo
numa caixinha de segredos.
as tristezas,
os desamores,
as impaciências,
escondeste tudo
num sobrescrito de promessas.
essas velhas histórias,
esse pavor do agora,
essas queridas amantes
em vidas de outrora
escreveste tudo
num diário de memórias.
nem palavras, nem sorrisos,
a noite lenta
adormece-te
no ritmo das fábulas.
© Miguel Raimundo
imagem www.gettyimages.com

Todas as linhas
da tua face
contam
estórias ou aventuras.
Todos os destinos
na palma da tua mão
auguram
fados ou fortunas.
Todos os sorrisos
dos teus lábios
procuram
beijos e ternuras.
Todos os cheiros
do teu corpo
são desejos
de viver.
desta alma
são promessas
de sentir.
Toda a nossa história
está nas linhas da tua face,
todos este beijos
foram sorrisos desses lábios.
Todo este cheiro de desejo
é a vida do teu corpo,
todo o meu ser
é sonho da nossa alma.
© Miguel Raimundo
09-06-2008, 02h40, Santarém
Imagem:
"Stoned carved sleeping wooden Buddha"
Bangkok, Thailand
Rory Gordon - Michael Ramage
www.gettyimages.com

A sueca abandonada sobre a mesa
sorri,
e de soslaio promete
vãs glórias e fortunas.
- O trunfo é copas!,
grita alguém, ao fundo do bar,
levantando-se sozinho,
sem rival e sem par.
Entre o café aromático
e a náusea do cigarro,
soltou-se a Manilha
fez parelha com um Ás,
- Aí! Que nem de livrar és capaz!
Abandonada sobre a mesa
a sueca adormeceu,
sonhando baixinho
promete-nos mais jogos e prazeres.
Finda a noite,
ainda um Joker
trapaceiro, pisca o olho àquela Dama,
mas isso são outros tantos,
já nem são cartas deste baralho.
© Miguel Raimundo

Nesta placidez de encantar
sobrevive o ser antigo.
- Bom dia!
num gesto quotidiano
de simpatia sincera,
o povo deste outro mundo
quer fintar o destino.
À sombra destas ruínas
e muralhas embruxadas
ouvem-se cantar as colinas
e as gentes deste Alentejo,
numa toada tranquila
próprio do canto
tão puro,
mas tão esquecido
nas brechas deste tempo.
Ao longe, para além daquele monte,
quase atrás do horizonte,
fica o mundo dos outros
em frenéticos desencontros,
sem saber e sem viver
a verdade desta calma,
sem sequer compreender
como se olha o Tempo nos olhos
com um sorriso matreiro.
À sombra destas muralhas
e ruínas encantadas
ouvem-se cantar as colinas
e o povo deste Alentejo.
12/03/2008, Beja
© Miguel Raimundo
Imagem:
Fotografia a partir do Castelo de Serpa,
© José R. Noras, 2008
uma velha, seca e murcha,
com ar de bruxa
das estórias
por ela milhares de
noites de prazer...
a primeira,
perscrutava o meu ser,
como mãe amiga
agoirava-me o futuro
com cuidados,
ominosos presságios
de sofrimento,
até ao uterino
momento de morrer,
via, sentia dizia
futuros sombrios:
escritos na palma da mão,
nas gemas do ovo,
nas vísceras
de bichos mortos...
a outra falava-me
só de vida,
contava-me estórias
de encantar
e dançava loucamente
em feitiços de espuma e de fermento
feitos de pecados de sonho...
a ciganinha
de olhos de mar,
abriu o seu corpo
tal qual um verso
tão belo que jamais foi escrito
no seus lábios o silêncio
era esmeralda
a sua voz pura,
mais imaculada do que ébano,
fazia revolver em convulsões
o sangue das minhas veias!
na sua dança muda
e contente
ela amava toda a gente,
e a mim a sós,
como se o meu corpo fosse
o dela e juntos fossemos nós...
outra cigana velha
lá me dizia:
- olha que isso são loucuras tuas...
é tão certo e sabido como
o Tempo que os amores
apressam a morte.
à noite, no breu
ela minha, eu era seu
(já nem me lembrava
se a cigana não era eu...)
nas suas coxas,
nos seus pelos,
nos nossos gritos brutais
mais do que poemas,
para além do nome inefável
de Deus,
éramos só
vontade de dar sem receber...
nas linhas tortas
da escritas dos deuses...
o fado aziago fora
destinado
a ciganinha morreu,
vejo de tempo a tempos
nas encruzilhados dos caminhos,
e dou-lhe um cruzado
para me velar
pelos destinos.
Coimbra, 02/11/2006,
© Miguel Raimundo
doutras eras, doutras danças.
doutros tempos e vontades,
olhos tristes de saudades.
Olhos doces de ternuras,
doutras histórias e aventuras,
de velhos sonhos e segredos,
olhos meigos e sinceros.
Olhos frios e traidores
doutras lutas e vinganças,
de paixões esquecidas e de amores,
olhos verdes de lembranças.
Olhos tristes de saudades,
de amantes ou de amizades,
de loucuras e prazeres,
olhos ousados das mulheres.
Olhos ternos, mas cansados,
doutros medos, doutras vidas,
doutras terras, doutros versos,
olhos vivos e castanhos.
Miguel Raimundo
7/03/2007 (22h40), Santarém
