sábado, maio 15, 2010

insomania

De novo buscas
noite adentro
as incertezas
de existir.

Temoiso procuras,
para além do sono
dos mortais,
outras sombras
desta caverna
em que habitais.

Preseguem-nos espectros
ominosos e de sangue
sequiosos,
mas da vida a única
certeza que encontras
é o clamor da alvorada.


@ Miguel Raimundo

Santarém, 20/04/2010 (01h00)


sexta-feira, abril 16, 2010

Jazz ao meio-dia

A toada tranquila
acompanha
a sombra fresca
neste pausa
de descanso.

Embalam-te os acordes,
mais o som 
do contrabaixo,
numa doce 
carta sem vozes.

Aqui a serenidade
renasce a cada compasso,
numa ou noutra
nota de fumo e de vida.

Beijas o ar 
quente
abraças essa brisa que
cede ao torpor dos blues.
Indolentemente  
aconchegas a alma,
num trago de vinho doce. 


Amora, Quinta da Altalaia - 
Festa do Avante, 06/09/2009 (18h50)

Miguel Raimundo




segunda-feira, abril 12, 2010

Diana ao Sol


Lentamente o astro
estende aos Teus pés
uma réstia de luz:
o tempo agora é Teu,
anuncia.

Lá longe,
no lusco-fusco de um horizonte,
Teu rosto traz a noite,
surgindo ainda,
serena,
neste Templo ao Sol!

Olhares desatentos
passam por ti Deusa,
enquanto fantasmas
e outros mortos
contemplam,
em libação,
o Teu olhar de Lua,
o Teu sorriso fatal.

Teu rosto plácido
de pedra ao sol
traz-nos enfim a noite
e vozes desses mortos
cantando efémeras
promessas de luar. 

Évora, 13.03.2008


© Miguel Raimundo


Templo de Diana, Évora 2008
Fotografia e arranjo de gráfico de José R. Noras





quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Amanhecer na lezíria

a L. Coen

auroras de paixão
no lusco-fusco
de um novo dia.

a marcha lenta
da vida
traz-nos em lume brando
o fim dos sonhos.

mas ainda
sozinhos e nus
resistem os amantes
neste horizonte,
buscando num começo
a miragem da ternura.

momento imaginado
traí a audácia
e a estratégia
soçobra na tranquilidade
das aparências.

mas ainda
famintos e rotos
os sonhadores
continuam para sempre
nesse caminho perdido
de outro mundo possível.

29/03/2008 (7h06)
(viagem Entroncamento/Santarém)

©Miguel Raimundo

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Saudades de Quental

Amor palácio encantado da ilusão,

da loucura desse Quental,

que ainda vive no seio

dos interstícios da razão?

Dor, baladas dessa Cabra,

que lembram o medo da prisão…

Revolta sob o secreto

e etéreo signo

da liberdade visceral,

desde do átomo

às chamas do sol em combustão,

ou às estrelas em explosão,

supernovas d’Evolução.

Filósofo sem o querer,

com o mesmo sem vontade,

que rompeste o útero

sagrado

de tua mãe,

consegues exprimir,

em pensamento

ânsias que me revolvem cá por dentro!


©Miguel Raimundo

2006-05-04 (16h40?)

domingo, janeiro 24, 2010

Ano Novo

Começos e recomeços,

sonhos transeuntes

e miragens que

me assaltam no

escuro das horas…

deixo sempre

a um canto

essas promessas adiadas

e tudo o que faço

e medito se queda

pela metade.

Nos tempos mortos

da insónia

exorta-me de novo

a vontade, a ânsia permanente

de perseguir

tua Imortalidade.


13-01-2008 (8h30) Santarém

© Miguel Raimundo

sexta-feira, novembro 20, 2009

Crónica de uma travessia

Embalado pelo mar

o enjoo desvanece,

lá ao fundo entre

a neblina

já ecoam os dizeres:

- "terra á vista"

(como quem diz,

"vida à vista é

bem hora de nasceres".)

"Vês aquele rochedo?

Ao lado está uma ilha" - conta o pai

ao menino frazino

e assustado

com as vagas no caminho.


Chegamos ao cais

e na nossa viagem

chegam os outros

que por aqui passam,

já que nunca se viaja

a sós.


Quietas no movimento

imagens de transeuntes,

obreiros e turistas,

povoam estas paragens

de ilhas ou de tormentas.


A nossa chegada é a partida

daqueles que cumprem seu destino.

A este vai vem constante

algum deus inconsciente

deu por nome:

vida.


Berlenga Grande, 13/08/2009 (18h01)

©Miguel Raimundo

segunda-feira, agosto 10, 2009

Berlenga e Ilha Velha

Longe dos caminhos
ou destinos,
afixada no horizonte,
a rocha sobrevive
numa linha inacessível
de tempo.

Indelével no seu fundo azul,
fica irrequita na quietude
das ondas que a rodeam,
neste mar contador de histórias.
No ilhéu ecoam vozes
de naufrágos ou de heróis,
de vaguentes e de monges...
Sentes saudades ainda
de partidas ou regressos,
alumeados por faroís.

O fortim da outra margem
brilha ao sol na tua face,
deu-te nome também de homem
e memória assim de guerra.

Sopro terrestre no Oceano,
porto de abrigo, sinal de tormenta...

Tão simples como um rochedo,
tão presente como um lugar,
de soslaio na viagem
contemplas uma ilha na paisagem.

13/07/2009 (18h10)
Foz de Arelho, praia

Miguel Raimundo.

quinta-feira, julho 02, 2009

Almoço em família

À roda da mesa

juntaram-se as gentes

almoçando a vida,

com um pouco de pão.


— Passem mais vinho!

Gritam lá do fundo,

não é hora de sede,

nem tempo de solidão.


— Vai um picantezinho?

pergunta o vizinho,

que roda a malagueta

de mão-em-mão.

— Sim senhor, Ti Zé.

a saber a pimenta

a vida é mais doce.

E com outra pitada de sal

o corrupio dos dias

parece menos mal.


Outra asa de frango

e mais uma febra

a saltar na brasa,

meia dúzia de copos depois

engolimos alegrias, tristezas,

saudades e tudo.

— Ainda haverá espaço para

o cafezinho?


- Até outro dia compadre vizinho.

Aqui nesta mesa à roda da gente.


© Miguel Raimundo

Balancho, 29/06/2009 (23h45)

quinta-feira, junho 18, 2009

entretempos ao sol



além do oceano
ficam sonhos adiados.

estas alfarrobeiras em flor
trazem a vontade de novo destino,
longe da sorte de outros infantes.

nesta incerteza constante,
contemplas o mundo
com o à vontade dos amantes.

a cena que segue aguarda guião,
seja a lágrima de derrota
ou um amanhã que canta.

no entretempo vives e nada mais.

viagem Faro/Lisboa 7/11/2008, (19h35)
© Miguel Raimundo

imagem: ponte Vasco da Gama ao sol

segunda-feira, março 23, 2009

benjamin button


desnascer,
a passo e passo
sentir o tempo no
seu anverso
no desenrolar das horas.

tanto a memória,
como angústia
subsistem
nessas vidas
que se encontram
a meio tempo,
tanto a dor
como a coragem
me conquistam
nesse mito
desatento.

uma vida ao contrário
num reverso de tempo
com promessas de sonhos
em ligeiros contratempos.

27/01/2009 (04h45), Santarém

Miguel Raimundo

sábado, janeiro 03, 2009

tentações do norte

no verde dos caminhos
o futuro surge,
outra vez, como a folha em branco
de um diário.

o cheiro a douro
traz memórias ou abraços 
de amigos distantes
nas transparências ausentes
dos destinos cruzados. 

quem passa este rio
não se esquece, 
antes vive com o sonho
por horizonte. 

20/11/2008 (17h29) viagem Porto/Viana do Castelo

Miguel Raimundo 


Promessas do Sul

raios de sol na aurora
doutro futuro, 
um trilho por percorrer
rumo ao sul ancestral.

beijos e encanto, 
noutras faces e amantes, 
cheiros de alfarroba,
de amêndoa ou de terras distantes. 

a calma deste ocidente, 
vive da multidão, 
prometendo em segredo 

trapaças do destino, 
ou uma vida por escrever?
agora sobejam estórias à espera de acontecer.

22/10/08, viagem Faro/Lisboa (20h??)
Miguel Raimundo

segunda-feira, novembro 10, 2008

pontes sobre um Tejo

no fluir deste rio
rumo ao sol poente
escondem-se mágoas,
promessas e o futuro
das gentes.

em mim nasceu de novo
esta vontade incrível
de ser ausente,
contigo ou em ti,
onde quer estejas,
quem quer que sejas.

para além destas certezas impacientes,
o rio corre no tempo
murando outras glórias
de amantes e vitórias,
de guerras e conquistas,
de viagens e perdição,
de morte, dor e traição...

almejar o infinito
destas águas azuis, ser eterno
como este Tejo
e ao mesmo tempo
da tua condição,
tão comum entre os mortais.

Miguel Raimundo

viagem Lisboa/Faro(Ponte Vasco da Gama), 6/11/2008, (15h45)

terça-feira, outubro 14, 2008

Certezas de Morte

Ausências transparentes
tal qual pérolas de cristal,
mortes aparentes
na aurora de um vendaval.

Loucura traz esse vento
doutras ausências brutais
e lembranças de certos momentos
de ternura entre os mortais.

- "Sorri perante tal sorte!"
exclama, sinistro, o vulto fatal.
E a nossa dor adormece

no regaço do medo ancestral.
- "São coisas da vida..." - dizes enfim,
certezas de morte, imprescindíveis.


© Miguel Raimundo

Santarém, 15/07/2008 (05h29)

quinta-feira, setembro 25, 2008

Mil beijos no silêncio


A noite lenta
adormece-te.
a juventude,
a paixão,
essa vontade de
não sei quê
guardas tudo
numa caixinha de segredos.

os medos,
as tristezas,
os desamores,
as impaciências,
escondeste tudo
num sobrescrito de promessas.


essas velhas histórias,
esse pavor do agora,
essas queridas amantes
em vidas de outrora
escreveste tudo
num diário de memórias.


nem palavras, nem sorrisos,
a noite lenta
adormece-te
no ritmo das fábulas.

© Miguel Raimundo

imagem www.gettyimages.com

terça-feira, julho 15, 2008

Linhas da face, sonho da alma



Todas as linhas
da tua face
contam
estórias ou aventuras.

Todos os destinos
na palma da tua mão
auguram
fados ou fortunas.

Todos os sorrisos
dos teus lábios
procuram
beijos e ternuras.

Todos os cheiros
do teu corpo
são desejos
de viver.

Todos os sonhos
desta alma
são promessas
de sentir.

Toda a nossa história
está nas linhas da tua face,
todos este beijos
foram sorrisos desses lábios.
Todo este cheiro de desejo
é a vida do teu corpo,
todo o meu ser
é sonho da nossa alma.

© Miguel Raimundo

09-06-2008, 02h40, Santarém

Imagem:
"Stoned carved sleeping wooden Buddha"
Bangkok, Thailand

Rory Gordon - Michael Ramage
www.gettyimages.com

sexta-feira, maio 23, 2008

O jogo da sueca


A sueca abandonada sobre a mesa
sorri,
e de soslaio promete
vãs glórias e fortunas.

- O trunfo é copas!,
grita alguém, ao fundo do bar,
levantando-se sozinho,
sem rival e sem par.

Entre o café aromático
e a náusea do cigarro,
soltou-se a Manilha
fez parelha com um Ás,
- Aí! Que nem de livrar és capaz!

Abandonada sobre a mesa
a sueca adormeceu,
sonhando baixinho
promete-nos mais jogos e prazeres.

Finda a noite,
ainda um Joker
trapaceiro, pisca o olho àquela Dama,
mas isso são outros tantos,
já nem são cartas deste baralho.


14/08/2007(03h33), Foz do Arelho

© Miguel Raimundo



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sábado, março 22, 2008

Sede de Planície



Nesta placidez de encantar

sobrevive o ser antigo.

- Bom dia!

num gesto quotidiano

de simpatia sincera,

o povo deste outro mundo

quer fintar o destino.


À sombra destas ruínas

e muralhas embruxadas

ouvem-se cantar as colinas

e as gentes deste Alentejo,

numa toada tranquila

próprio do canto

tão puro,

mas tão esquecido

nas brechas deste tempo.


Ao longe, para além daquele monte,

quase atrás do horizonte,

fica o mundo dos outros

em frenéticos desencontros,

sem saber e sem viver

a verdade desta calma,

sem sequer compreender

como se olha o Tempo nos olhos

com um sorriso matreiro.


À sombra destas muralhas

e ruínas encantadas

ouvem-se cantar as colinas

e o povo deste Alentejo.


12/03/2008, Beja

© Miguel Raimundo

Imagem:

Fotografia a partir do Castelo de Serpa,

© José R. Noras, 2008

sexta-feira, novembro 02, 2007

Sinas da Cigana

um dia conheci,
(lá outrora, na bruma
das memória que diz
infância)
duas ciganas...

uma velha, seca e murcha,
com ar de bruxa
das estórias

outra linda de morrer,
por ela milhares de
noites de prazer...

a primeira,
perscrutava o meu ser,
como mãe amiga
agoirava-me o futuro
com cuidados,
ominosos presságios
de sofrimento,
até ao uterino
momento de morrer,

via, sentia dizia
futuros sombrios:
escritos na palma da mão,
nas gemas do ovo,
nas vísceras
de bichos mortos...

a outra falava-me
só de vida,
contava-me estórias
de encantar
e dançava loucamente
em feitiços de espuma e de fermento
feitos de pecados de sonho...


a ciganinha
de olhos de mar,
abriu o seu corpo
tal qual um verso
tão belo que jamais foi escrito

no seus lábios o silêncio
era esmeralda
a sua voz pura,
mais imaculada do que ébano,
fazia revolver em convulsões
o sangue das minhas veias!

na sua dança muda
e contente
ela amava toda a gente,
e a mim a sós,
como se o meu corpo fosse
o dela e juntos fossemos nós...

outra cigana velha
lá me dizia:
- olha que isso são loucuras tuas...
é tão certo e sabido como
o Tempo que os amores
apressam a morte
.


à noite, no breu
ela minha, eu era seu
(já nem me lembrava
se a cigana não era eu...)

nas suas coxas,
nos seus pelos,
nos nossos gritos brutais
mais do que poemas,
para além do nome inefável
de Deus,
éramos só
vontade de dar sem receber...

nas linhas tortas
da escritas dos deuses...
o fado aziago fora
destinado

a ciganinha morreu,
a velha porém, ainda
vejo de tempo a tempos
nas encruzilhados dos caminhos,
e dou-lhe um cruzado
para me velar
pelos destinos.

Coimbra, 02/11/2006,
© Miguel Raimundo