irRealidade
Ele caminhou lentamente, fixando as pupilas no céu, e foi então que viu a estrela. Era o mais belo astro celeste que alguma vez tinha olhado. À sua volta não estavam as construções ameaçadoras, estava a irRealidade, estavam as árvores bem verdes, que ali existiram há dez ou há vinte anos atrás. Os arbustos melancólicos onde brincava, corria, saltava, subsistiam apenas na memória efémera do seu ser. E desde o mais íntimo da consciência essa memória questionava-o, de forma cáustica Há já quanto tempo é que não brincava? Há já quando tempo não corria? Há quanto tempo não saltava? Desde quando parara, nessas penumbras da alma, o correr do sangue? Esse mágico néctar tinto que embriagava o monótono do quotidiano. Quando lhe morrera a alegria simples de viver?
Na verdade, a sua vida era uma brincadeira, nada fazia sentido. Tudo obedecia a frenético círculo de tédio, coordenado pelos diabólicos ponteiros de um relógio cósmico, subjacente à própria ideia de Tempo. O seu corpo limitava-se a andar de um lado para o outro num frenesim brutal e violento, deixando-o exangue e transformava os “trabalhos e os dias” numa brincadeira tão…. Mas que brincadeira tão chata! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. do jantar para o café, do café para a cama. E depois, dia após dia, após dia, após dia… O mesmo círculo repetitivo de tédio que jamais teria qualquer fim (ou sentido obscuro). Nem o amor lhe conferia espírito. O amor era só mais uma rotina, muito bem ensaiada com outro vulto de um mundo vago e vão. Entretanto, bebia um café, fumava um cigarro, tomava um comprimido ou fazia esse amor de náusea. Quando deu por isso já não sabia quantos cafés bebera, quantos maços fumara, quantos, comprimidos tomara, quantas vezes se enganara fingindo alegrias falsas.
Tão falsa que era a sua face ao espelho! Tão pequena que agora lhe parecia sua força fraca…, a sua inércia cómoda de escravo, de uma ordem social mítica quase tão irreal como o próprio tempo. Quão efémera, quão pequena e mentirosa era sua existência. Na qual a alegria deixara de sequer fazer sentido.
Agora, sozinho na irrealidade, esperava, calmamente, o efeito ébrio de meia dúzia de uns quaisquer comprimidos misturados numas três ou quatro garrafas de vinho com quantas imperiais, servidas como sobremesa da nostalgia. Agora, a sós, limitava-se as olhar as estrelas. Sabia. Guiava-o uma ténue a certeza de que se transformaria numa delas (ou num anjo quem sabe?) Desejava a morte como quem compra um gelado. De súbito. Um espectro ominoso assolou a sua mente… reencarnar. Reencarnação!? Além de absurda, a ideia era horrível, tenebrosa. E os seus neurónios contorciam-se na dor de uma tortura eivada por só pensamento: viver tudo de novo… Estremeceu? Agora tinha medo. Agora a irRealidade desaparecia e ele acordava no meio de uma nova monotonia de morte e de ressurreição, ou renascimento constante. Acordava numa sucessão de Ser estupidamente dialéctica e existencialmente angustiante.
Terrivelmente assustado, a pensar na hipótese, para ele ainda absurda e desconexa de reencarnar, recordou as árvores irreais. E se reencarnasse numa árvore? Se ele fosse uma árvore até seria engraçado? Transformar-se numa daquelas árvores que vivem cem, quinhentos, ou mesmo dois mil menos, tornar-se-ia menos monótono que a sua vida. E se fosse numa formiga? Não…, nunca poderia vir a ser uma formiga! Na verdade nós somos imitações baratas das formigas – cogitava sorumbático – elas um dia vão nos dominar – agoirava. Até porque não há nenhuma formiga que não se conforme com a extrema banalidade da sua vida e lhe tente por um fim, concluía. Aliás, não haverá nenhuma formiga que se perturbe com absurdo da sua existência. Ou até que, transforme um vão sentimento de si num problema angustiante e filosófico. Mas será que as formigas também constroem problemas existenciais? Quem sabe, um dia nos transformaremos em formigas, se é que não somos já uma espécie (menos desenvolvida, é claro) da família Formicidea ou do género Dordylus, quem sabe se não somos uma Monomorium sapiens… Ah desculpem, Monomorium sapiens sapiens?
Tinha medo, exactamente no momento em perdia os sentidos empíricos e desmaiava. Tombado no chão, perfeitamente sóbrio e perfeitamente consciente, olhou a estrela durante uma imensidão de minutos. Depois, recuperou forças, levantou-se, arrependeu-se de rejeitar a sua existência. Arrependeu-se de recusar a alegria pura e simples de viver. Arrependeu-se, pois tinha medo! Tinha medo, medo de não vir a ser uma árvore, medo de não vir ser uma estrela e medo até de nunca vir a ser um anjo ou um Deus! Tinha medo, tinha temor de vir a ser uma formiga, tinha horror de voltar a viver… Talvez até tivesse medo de viver. Agora que tinha medo, também tinha um pavor ancestral do nada. Agarrava-se com força ao patético do tédio. Agarrava-se ao ridículo absurdo da vida, rejeitando por momentos aquela irRealiade fatal que irremediavelmente o seduzira.
Levantou-se de súbito e de relance virou os olhos pela última vez em direcção à sua irRealidade, em direcção à sua Estrela. Agora sentia nas coisas, sentia na materialidade do mundo, uma estranha alegria de Ser. A felicidade transformara-se no acto puro de respirar e a vida real parecia-lhe uma aventura por encetar. Nascia de novo, naquele céu estrelado, rasgando o ventre de uma outra mãe que não a sua. Levou a mão ao bolso. A bula dos comprimidos que tomara sustentava que estes não originavam qualquer efeito com o álcool. Afinal, estava apenas completamente bêbado, tanto de vinho, como de vida.
O silêncio imperava quando tudo ruiu, fosse a realidade da vida ou a irrealidade da morte. Não ouviu nenhum som e, sorrateiramente, um automóvel à velocidade de cento e tal quilómetros por hora atingiu-o. Teve morte imediata. Uma morte eficaz talvez… mas, obviamente, dolorosa para quem tinha nascido há tão pouco tempo.
Instantes após o sinistro mortal, algures na savana de África nascia uma pequena formiga vermelha… Entretanto, lá longe a três milhões de anos-luz, surgia outra nova estrela no firmamento.
© Miguel Raimundo,
Santarém, 1997