segunda-feira, outubro 17, 2011

Ideal Pequeno Burguês (ou das Classes Médias)



Estou doente, doente na alma,
bebendo um vinho velho
que me doí nos ossos.
Olho à volta o mundo do homens
onde só enxergo destroços.

Estou doente, doem as ideias.
Aqueço, com mel, chá de cidreira
para afastar o fel da melancolia.
A bebida quente só me traz a dormência
e o crescer deste vazio, desta tamanha ausência.

Estou por fazer, sinto-me com a força do mundo
e incapaz de acontecer.
Onde estão as florestas virgens por desflorar?
Quais serão minhas Mensagens por escrever?

Há tanto que fazer, tanto por destruir e tudo por recomeçar! 
Porque me faltam as mãos?
Porque ficam meus irmãos quietos neste tédio,
nesta modorra de escravidão...?
Sou um que encerra muitos, sou mais que Legião,
sou germe de liberdade, quero ser rEvolução!

Procuro, à luz negra de teu olhar, ideologias por nascer, 
e quedo-me neste lânguido declamar
de uma doença eterna, tanto minha como da humanidade,
é um mal que nos tolda o vigor e nos afecta a vontade.

Estou doente,
que façam os outros as revoluções.
Eu vou acabar o meu chá quente.  


Imagem:
After Breakfast
Elin Danielson-Gambogi 
Óleo sobre tela, Século XIX
© Miguel Raimundo
Santarém, 10/10/2011,(21h27)



segunda-feira, outubro 10, 2011

Andanças




Com memórias e com histórias diversas
segues caminho entre montes,
no espaço que subjaz
daquela terra a esta
fica a rota que tomaste.

Sob as colinas do carreiro
afastas folhagens de eucalipto e lá vislumbras,
junto ao azul do horizonte,
as chaminés de mais outra aldeia
onde habitam os mortais.

Tua vontade não é a de chegar,
nem de aportar a qualquer lado,
não procuras partidas, nem chegadas
e cada vida em ti é uma passagem.
Tua sina é o caminho.

És tão só viandante,
vais daqui acolá, daquém além,
e daí para outro lado...
Chegas a "cascos de rolha"
e até onde Judas se perdeu.

Tua grandeza é essa:
uma viagem perene.
Tua tristeza é igual,
tão vasta como o horizonte.


por Miguel Raimundo
Balancho (Carvoeiro, Mação)
07/08/2011, (23h50) 

Imagem:
Caminho  entre Balancho e Frei João
Marina Bragança, 
Fevereiro 2010

domingo, setembro 11, 2011

Eram 11 dias em Setembro




aqui, bem na esquina do século,
está a morte.

"Sou o deus de muitos braços,
o destruidor de mundos"
- começa a perorar o vulto sinistro.

"Vinha trazer discórdia,
semear a fome, a dor,
a guerra e o caos.
Trazia comigo algozes,
seres fantásticos e letais:
o basilisco, a esfinge, o dragão,
rescrevi feitiços velhos,
instiguei bruxas, ogres e uma ou outra maldição.
Erguendo bem alto o meu ceptro
entendi rasgar os céus invocando tempestades
para com tais tormentas agitar os mares,
sacudir a terra e derrubar cidades.

"Se bem me lembro,
cheguei aqui
eram onze dias em Setembro,
com deslento compreendi,
não ter lugar no mundo dos homens.
Em vez de medo e de dor
todos me acalentaram,
como nas guerras antigas,
para minha surpresa e temor,
saudavam com vivas a Morte!
Com sangue se paga o sangue,
é a lei destes tempos,
porque da raiva se bebe a vingança,
sem piedade alguma, sem quaisquer lamentos.
Nesta aldeia dos homens,
todos me queriam para si,
abraçavam a morte numa última dança."

"Fui embora.
Nenhuma das minhas penas,
nenhuma das minha bestas,
nem sequer os meu anátemas
poderão superar em maldade,
em guerra ou em pavor,
os saberes destes mortais,
nem a morte poderia extinguir a verdade,
ou infligir mais dor,
como no quotidiano dos dias,
entre fomes e terrores
aqui na cidade dos homens,
onde está ausente o amor."



por Miguel Raimundo
11/09/2011
Viagem Braga/Santarém (16h09) 

imagem
www.globalsecurity.org





quarta-feira, agosto 24, 2011

O café do Irlandês


A madeira das cadeiras,
os tampos de mármore sobre as mesas
recordam-se dos "copos de três"
e do "café com cheirinho",
antes do aroma a cevada ocupar
este lugar.

Na aldeia junto ao Mar,
o velho tasco é agora, como vês,
o café do Irlandês!

Aqui o "vinho carrasco"
deu lugar ao "puro malte"
e um fado mal cantado,
virou folclore celta
ou música mexicana,
que este café do Irlandês
é quase "a casa da Joana"
(aqui cabe o mundo e a aldeia.)

Junto ao balcão,
em castelhano bebem-se caipirinhas,
em francês sorvem os mojitos,
por entre o cheirinho da hortelã,
em sotaque carregado dessa pronúncia do norte,
alguém pede um cimbalino,
para confusão do taberneiro,
que vai gabando a sua sorte.

No Café do Irlandês
ainda se trocam as cartas,
entre o uno e a sueca,
qualquer um pode jogar...
Por aqui passa o rapaz de portátil,
navegando no virtual,
ou senhor sisudo levando de braçado o jornal,
que este pub, como vês, é a aldeia e é global!

Entre o novo e o velho,
bebo cerveja sabe-me a luar,
amargado com vestígios de sonho,
aqui sob a Caravela,
a Oeste, ao pé do Mar.


© Miguel Raimundo  

Foz do Arelho, 11/07/2011, 23h45




Imagem:  © Wikipedia
Irish Pub, Cracóvia, Polónia, 
Foto:  Jongleur100

terça-feira, julho 26, 2011

O asfalto e o destino

o asfalto faz tua rota,
terás por caminho
outro futuro,
outro amanhã.


teu destino faz o caminho, 
sob esta estrada larga 
e sinuosa
o sol desce intraquilo, 
num lento esgar laranja,
como que ameaçando nunca voltar.


neste crespúsculo dos dias
continuas vagueando entre trilhos,
entre promessas, entre sonhos vagos,
sob a linha do horizonte.


por Miguel Raimundo

25/07/2011, 21h05, 
viagem Apliarça/Santarém

imagem de:

sexta-feira, julho 08, 2011

Desvios

no trilho fica a
vontade de lá ir,
a tal lugar
que apenas pode ser,
ou até nem aí estar.

são sombras e são voragens
são tentações de passagem
as maçãs de caminho.

por Miguel Raimundo
viagem Coimbra/Santarém, 
07/07/2011, 16h15

quinta-feira, julho 07, 2011

Entrevista de Miguel Raimundo ao "Paraíso Biblioteca"



Amigos, camaradas das encruzilhadas da vida,  leitores convido-vos a ler a minha entrevista ao blog ""Paraíso Biblioteca"... e, para quem ainda não sabia, a conhecer um novo espaço onde de letras, de leituras, de livro e de escritores onde o paraíso tem a forma de biblioteca. 

Eu escrevo como quem desabafa. Para além da necessidade primordial de contar histórias, à qual nunca consigo fugir, escrever é desabafar, sem nunca ter bem a certeza de quem é o ouvinte ou sequer se há ouvinte. A escrita procura os outros, é uma partilha. Há na escrita uma necessidade fundamental de leitura, uma necessidade intrínseca ao acto criador, ou melhor, ao acto perguntador. Assim, ao escrever procuramo-nos continuamente uns aos outros. Parafraseando o músico Fausto: “não escrevo porque sonho, escrevo porque é real”!   
Miguel Raimundo
Vejam a entrevista completa em:
http://paraisobiblioteca.blogs.sapo.pt/16717.html


na imagem:
escultura "O pensador" de A. Rodin

quinta-feira, junho 23, 2011

Poema imprefeito das viagens


A viagem é transparência,
é troca com ofertas
entre mortais.
a viagem traz-nos uma certa ausência

de qualquer coisa que se busca
e se encontra jamais.

A viagem é um crepúsculo,
não é dia nem é noite,

é um estar aqui entre nós
mas nunca de corpo inteiro.
(tal como estou contigo a sós).

A viagem é desencontro
entre existências profanas,
outra vezes, é ponte de encontro
entre vontades insanas.


© Miguel Raimundo 


Madrid (Café Central)
30/Abril/2011, 18h00

Imagem:
Le Blanc-seing  óleo sobre tela de  René Magritte (1965)

sexta-feira, junho 03, 2011

o florir da Nostalgia

a Francçoise Hardy

No banco de jardim,
eles se amam
num momemto eterno.

Naqueles beijos
de paixão inconsequente
até cabe um universo em expansão.
Pelas frestas da janela
entrevês o gentil afago
dos cabelos...,
e, agora, pões te a espreitar,
com um sorriso matereiro,
o beijo roubado.


Suspiras por momentos de adolescer,
entre bancos de jardim, entre as esquinas do tempo,
soçobram vontades,
amadurecem, com teu copo de vinho velho,
as saudades.

por Miguel Raimundo

Santarém (perto da Sé),
26/05/2011, 00h13  


Fotografia por Marina Bragança, 2011
Roseiral do Jardins do Bom Retiro (Madrid)

domingo, maio 08, 2011

Paixões de Março


Quem te disse que te amo?
Quem te contou histórias de amor?
Alguém adivinha o que sinto,
sussurra segredos e engana a dor...

Quem te escreveu essas belezas
cheias de sonhos e de cores?
Quem te roubou tuas certezas
e em seu lugar te deu flores?

A noite traz velhas lendas,
histórias antigas com suaves dores.
De súbito acerca-te o medo e estremeces de pavor,

temes por qualquer morte, efémera como a tua dor
com vinho embriagas tristezas,
com a vida imaginas amores.
por
Miguel Raimundo
16/04/2011, (21h40), 
Balancho, (Carvoeiro, Mação)


Na imagem:
O beijo dos amantes 
óleo sobre tela de René Magritte

segunda-feira, abril 18, 2011

Tempos de Traição

A voz dos traidores é doce,
sabe a mel e cheira a flores.
A ideia dos traidores encanta
vende magia e tempos de dança.

Com uma mão de veludo
trazem os sonhos e
os anéis de ouro
(tão grande é a bondade
dos algozes!),
com outra mão de ferro
prendem-te a vontade,
hipotecam-te a vida.

O abraço dos traidores é lento,
como o esgar de medo
na viela deserta.
A ceifa dos traidores é farta,
eles trazem a guerra
aos homens de boa vontade.

Sorrateiros como lacraus.
entram nas frestas
porta adentro das casas
trazem promessas,
limpidas como cristal.
Bebem teu vinho,
enquanto te caucionam a vida
às lógicas do capital.

A vitória do traidores é certa,
quando se cruzam os braços e
se calam as bocas.

Quando gritam as bocas,
por paz e por pão,
a morte dos traidores é festa
no seio da revolução.

por Miguel Raimundo,
16/04/2011, 01h00, Balancho (Carvoeiro, Mação)


Ilustração "Lobo com pele de  cordeiro"
Autor não identificado, s/d

quinta-feira, março 31, 2011

Urgências


a Eugénio de Andrade

Só o poema é urgente,
só  o poema é presente.
A vida que morra,
a memória (a minha, a tua)
que arda no crematório
dos astros…

e o tempo que nem
nos julgue,
pois só Tu e eu
nos sabemos mais reais 
do que o relógio.

só o poema é urgente,
o resto é morte.
Só no verso vives,
ainda que ausente.

Só o poema é presente,
entre as urgências
da morte
ou de qualquer
amor descontente.


por Miguel Raimundo
04/09/2006, Coimbra (Café St. Cruz)

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Linha do Norte


A viagem
prossegue tranquila
sem rumo, nem rota
tão-só nos guia uma miragem.

Desenhamos sobre papel
um mapa imaginário,
cheio de promessas por cumprir
adornado de amores por fazer.

Aí,temos montes, temos vales,
temos cidades e temos rios.
Aí, passamos por crianças tranquinas

disfarçadas de amantes inocentes
ou viajantes inconsequentes
com o amanhã como destino.

por Miguel Raimundo
Coimbra, Estação de Coimbra B
02/07/2010 (15h55)

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Apresentação do livro "À Sombra do Corvo" - Obrigado!


A tod@s os que participaram na sessão de apresentação e em especial ao Conservatório de Música de Santarém, a Helena Nogueira, a Francisco Noras e às funcionárias da Casa do Brasil o aqui fica o meu sincero agradecimento público.

Algumas fotografias da apresentação portuguesa do livro "À Sombra do Corvo".




sexta-feira, dezembro 10, 2010

o Efémero dos Dias

Com porte brioso
e altivo,
congeminado no lume de séculos,
o Animal enfrenta o Destino,
naquela tarde quente.

O Touro investe,
de olhar semicerrado,
nesse sua força encerra,
mais do que a vida
ou do que a morte,
um confronto eterno
com o Fado ancestral.

À tarde, naquela arena,
cavalos, homens
e touros
extravasam os seus corpos,
transformando-se no próprio mito
de onde procede o ritual.

O sangue escorre
tranquilo
sagrando a Festa Brava,
com os sacrifícios da audácia
dos que tomam por vencido
o efémero dos dias.


© Miguel Raimundo
Santarém (Monumental Celestino Graça)
 24/10/2010 (19h50)

sábado, novembro 27, 2010

irRealidade

irRealidade
Ele caminhou lentamente, fixando as pupilas no céu, e foi então que viu a estrela. Era o mais belo astro celeste que alguma vez tinha olhado. À sua volta não estavam as construções ameaçadoras, estava a irRealidade, estavam as árvores bem verdes, que ali existiram há dez ou há vinte anos atrás. Os arbustos melancólicos onde brincava, corria, saltava, subsistiam apenas na memória efémera do seu ser. E desde o mais íntimo da consciência essa memória questionava-o, de forma cáustica Há já quanto tempo é que não brincava? Há já quando tempo não corria? Há quanto tempo não saltava? Desde quando parara, nessas penumbras da alma, o correr do sangue? Esse mágico néctar tinto que embriagava o monótono do quotidiano. Quando lhe morrera a alegria simples de viver?
Na verdade, a sua vida era uma brincadeira, nada fazia sentido. Tudo obedecia a frenético círculo de tédio, coordenado pelos diabólicos ponteiros de um relógio cósmico, subjacente à própria ideia de Tempo. O seu corpo limitava-se a andar de um lado para o outro num frenesim brutal e violento, deixando-o exangue e transformava os “trabalhos e os dias” numa brincadeira tão…. Mas que brincadeira tão chata! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. do jantar para o café, do café para a cama. E depois, dia após dia, após dia, após dia… O mesmo círculo repetitivo de tédio que jamais teria qualquer fim (ou sentido obscuro). Nem o amor lhe conferia espírito. O amor era só mais uma rotina, muito bem ensaiada com outro vulto de um mundo vago e vão. Entretanto, bebia um café, fumava um cigarro, tomava um comprimido ou fazia esse amor de náusea. Quando deu por isso já não sabia quantos cafés bebera, quantos maços fumara, quantos, comprimidos tomara, quantas vezes se enganara fingindo alegrias falsas.
Tão falsa que era a sua face ao espelho! Tão pequena que agora lhe parecia sua força fraca…, a sua inércia cómoda de escravo, de uma ordem social mítica quase tão irreal como o próprio tempo. Quão efémera, quão pequena e mentirosa era sua existência. Na qual a alegria deixara de sequer fazer sentido.
Agora, sozinho na irrealidade, esperava, calmamente, o efeito ébrio de meia dúzia de uns quaisquer comprimidos misturados numas três ou quatro garrafas de vinho com quantas imperiais, servidas como sobremesa da nostalgia. Agora, a sós, limitava-se as olhar as estrelas. Sabia. Guiava-o uma ténue a certeza de que se transformaria numa delas (ou num anjo quem sabe?) Desejava a morte como quem compra um gelado. De súbito. Um espectro ominoso assolou a sua mente… reencarnar. Reencarnação!? Além de absurda, a ideia era horrível, tenebrosa. E os seus neurónios contorciam-se na dor de uma tortura eivada por só pensamento: viver tudo de novo… Estremeceu? Agora tinha medo. Agora a irRealidade desaparecia e ele acordava no meio de uma nova monotonia de morte e de ressurreição, ou renascimento constante. Acordava numa sucessão de Ser estupidamente dialéctica e existencialmente angustiante.
Terrivelmente assustado, a pensar na hipótese, para ele ainda absurda e desconexa de reencarnar, recordou as árvores irreais. E se reencarnasse numa árvore? Se ele fosse uma árvore até seria engraçado? Transformar-se numa daquelas árvores que vivem cem, quinhentos, ou mesmo dois mil menos, tornar-se-ia menos monótono que a sua vida. E se fosse numa formiga? Não…, nunca poderia vir a ser uma formiga! Na verdade nós somos imitações baratas das formigas – cogitava sorumbático – elas um dia vão nos dominar – agoirava. Até porque não há nenhuma formiga que não se conforme com a extrema banalidade da sua vida e lhe tente por um fim, concluía. Aliás, não haverá nenhuma formiga que se perturbe com absurdo da sua existência. Ou até que, transforme um vão sentimento de si num problema angustiante e filosófico. Mas será que as formigas também constroem problemas existenciais? Quem sabe, um dia nos transformaremos em formigas, se é que não somos já uma espécie (menos desenvolvida, é claro) da família Formicidea ou do género Dordylus, quem sabe se não somos uma Monomorium sapiens… Ah desculpem, Monomorium sapiens sapiens?
Tinha medo, exactamente no momento em perdia os sentidos empíricos e desmaiava. Tombado no chão, perfeitamente sóbrio e perfeitamente consciente, olhou a estrela durante uma imensidão de minutos. Depois, recuperou forças, levantou-se, arrependeu-se de rejeitar a sua existência. Arrependeu-se de recusar a alegria pura e simples de viver. Arrependeu-se, pois tinha medo! Tinha medo, medo de não vir a ser uma árvore, medo de não vir ser uma estrela e medo até de nunca vir a ser um anjo ou um Deus! Tinha medo, tinha temor de vir a ser uma formiga, tinha horror de voltar a viver… Talvez até tivesse medo de viver. Agora que tinha medo, também tinha um pavor ancestral do nada. Agarrava-se com força ao patético do tédio. Agarrava-se ao ridículo absurdo da vida, rejeitando por momentos aquela irRealiade fatal que irremediavelmente o seduzira.
Levantou-se de súbito e de relance virou os olhos pela última vez em direcção à sua irRealidade, em direcção à sua Estrela. Agora sentia nas coisas, sentia na materialidade do mundo, uma estranha alegria de Ser. A felicidade transformara-se no acto puro de respirar e a vida real parecia-lhe uma aventura por encetar. Nascia de novo, naquele céu estrelado, rasgando o ventre de uma outra mãe que não a sua. Levou a mão ao bolso. A bula dos comprimidos que tomara sustentava que estes não originavam qualquer efeito com o álcool. Afinal, estava apenas completamente bêbado, tanto de vinho, como de vida.
O silêncio imperava quando tudo ruiu, fosse a realidade da vida ou a irrealidade da morte. Não ouviu nenhum som e, sorrateiramente, um automóvel à velocidade de cento e tal quilómetros por hora atingiu-o. Teve morte imediata. Uma morte eficaz talvez… mas, obviamente, dolorosa para quem tinha nascido há tão pouco tempo.
Instantes após o sinistro mortal, algures na savana de África nascia uma pequena formiga vermelha… Entretanto, lá longe a três milhões de anos-luz, surgia outra nova estrela no firmamento.
© Miguel Raimundo,
Santarém, 1997

sexta-feira, novembro 12, 2010

Notícias "À Sombra do Corvo"

Car@s amigos,

Alguns poemas meus foram seleccionados para a antologia brasileira de poesia fantástica À sombra do Corvo. A obra será lançada em São Paulo, no Brasil, no próximo dia 20/11 durante o JEDICON local.

Hoje saiu uma notícia sobre o evento que partilho convosco, através do site da editora Estronho:

http://www.estronho.com.br/editora/index.php/noticias-dos-corvos

O livro também já está em pré-venda no mesmo site.


Com amizade,

Miguel Raimundo 

terça-feira, novembro 09, 2010

Festa dos Estudantes!



Cheira a festa 
no chão desta terra,
a música marca o ritmo
do respirar dos viventes,
buscando somente a
alegria de aqui estar.


Entre copos de embriaguez,
entre lembranças de outras eras, 
os reencontros, as amizades, 
são bebidas em jarras de cerveja, 
no meio dos brindes 
à vontade de aqui estar.  


O cheiro deste chão
é o som da festa
e a vontade de viver
aqui nos tráz constantemente.
Sabemos, nos sobressaltos 
do relógio, que a realidade
fica para além do rio, 
mas soçobra o indecente 
desejo de aqui estar.


Miguel Raimundo


Coimbra, 25/10/2010 (14h30)


Fotografia de Ricardo Carrilho
Benção das Pastas, Queimas Fitas de 2005
Sé Nova, Coimbra

segunda-feira, outubro 11, 2010

Velhos Amantes


São sorrisos
com desdém,
são olhares desatentos,
como convém.

Nestas encruzilhas,
em que velhos amantes
se encontram,
nem sabem que fazer
das sobras
do amor ou do prazer.

São sonhos inconsequentes,
são desejos ausentes,
por vezes são, ainda,
noites lânguidas e
quentes.

Noutros versos, noutras
estórias
foram velhos amantes,
são amigos nas memórias,
tão-só viajantes de caminhadas
ilusórias.


Santarém, 7/04/2010 (02h05)  

©Miguel Raimundo

Concepção da imagem de Tiago Carvalho