Éramos jovens, rebeldes porventura,
tomávamos ópio e outras drogas para sorrir,
entretendo a vacuidade do Ser.
Nesses néctares todos do mundo,
na embriaguez da nossa alma,
procurávamos um prazer alto e profundo,
tão certo como o sentir dos poetas, tão fatal como a verdade,
sem quaisquer cedências a saberes antigos ou à sensata calma.
Sem amo, sem lei, sem regras
a amizade fluía no tempo eterno
do segredo da partilha,
entre corpos unidos no suor,
entre copos bebidos com clamor,
ficaram glórias nossas,
memórias sagradas que nem sabemos contar.
Passou essa Era das Estórias,
das rodas na taberna e da cor das amizades.
Evolou-se em baforadas a época de tais fumos
de charros bem enrolados sobre vãs glórias
de o fazer, entre outras fábulas e outros heróis.
Sumiram-se, no jade frio de nossas máscaras, os sorrisos cúmplices,
esqueceram-se noitadas de académico labor,
ou de outras faculdades, que uns tomam por luxúria e outros sabem puro amor.
Agora que crescemos a nossa droga é o tédio,
servida em pequenas doses de comprimidos para dormir.
Se antes buscávamos o prazer, agora queremos não pensar, nem sentir...
Engolimos estes analgésicos para o espírito,
sem cuidar na nossa alma, para irmos morrendo devagar
entre saberes antigos, com sensatez e calma,
feitos de medicamento com rotinas diárias,
sem Vontade, sem qualquer Mistério para o porquê de existir!?
Crescer neste "mundo dos senhores",
com estes falsos deuses das ciências,
com torturas, com horrores,
é aprender a hipocrisia,
das Máscaras de Cada Dia.
Crescer assim, é ser douto no velhaco evangelho antigo:
"odeia o próximo como a ti mesmo,
nada estimes para além das riquezas que acumules".
(No escuro, em momentos ténues,
entre o Natal e o meio dia,
assalta-nos a esperança:
porque não resgatar essa alegria?
Porque não voltar a esse sorriso de outrora
que nos insuflava de vida e do prazer do agora?
Para quando rasgarmos as máscaras?
Para quando de novo proclamarmos,
por cada um, por todos, o prazer por liberdade?)
@ Miguel Raimundo, 26/12/2011 (?h??) e 13/02/2012 (22h18)
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