Gato que brincas na rua,
entre o vasto arvoredo,
que sina é a tua?
Qual é o teu medo?
Gato sem amo, sem dono,
corres no mundo
a qualquer momento,
saboreando o segundo
sem rota e sem tempo.
Gato pulgento
avaro e matreiro,
qual é teu segredo?
Sete vidas tem o gato
que brinca na rua
zombando do medo.
Sete versos tem o gato
que se esconde no poema
como nos arvoredos,
guardando em suas vidas
velhas sombras esquecidas
e tão-só meus egrégios segredos.
26/12/2012, (19h50)
Santarém
por Miguel Raimundo
domingo, janeiro 06, 2013
quarta-feira, novembro 28, 2012
Viagens com Saramago
Olhar arguto perante o tempo,
soube narrar-nos memórias de um convento.
Prescutava na nossa cegueira branca,
raras achegas de lucidez.
Em blasfemos evangelhos
trouxe a lume novas verdades,
Em ano fatídico de Ricardo Reis,
de Pessoa inspirou saudades.
Com as prosas possíveis
ouviu um povo levantar-se do chão
nos caminhos da liberdade.
Numa mão cheia de sonhos
deixou-nos aqui aportados
na secular Jangada de Pedra
à espera de novas viagens.
11/10/2012, 23h55
por Miguel Raimundo
Poema lido na sessão de homenagem a José Saramago,
no dia em que faria 90 anos, 16/11/2012,
nos paços do concelho de Santarém
segunda-feira, outubro 22, 2012
Dias de sorte / Ventos de azar
Sente-se a chuva
que te marca a fronte,
sentes que tudo
ao teu redor
conspira para te derrubar,
... mas ainda assim resistes
à intempérie,
em dias que desejas
nem aqui estar.
Acordas
enleado em palmas de ouro,
rodeado de musas
cantado hinos de vitória,
nesses dias de glória
o tempo corre sem parar,
nem te os deixa saborear.
Há dias de sorte
e horas vagas em que
pareces não viver,
há ventos de azar
e tristezas por colher.
Neste caleidoscópio da existência
a vida é a surpresa intranquíla,
entre rumores de morte
e antigas promessas de amor.
02/02/2011 (0h35), Santarém
por Miguel Raimundo
Imagem: "Rosa dos Ventos" em
por Ribeiro, António
quarta-feira, outubro 03, 2012
regresso à Praia Velha
Aqui aportado,
neste pinhal de histórias
encontrei lembranças queridas,
suadades velhas e outras
façanhas de que nem tinha memórias
à sombra destas árvores centenárias,
recordo reis e poetas,
com suas gestas e suas glórias.
Nestas falésias fomos crescendo
eu e o rapaz das memórias,
alguém partiu e ele ficou,
esperando o encanto de um regresso.
Sei-me outro nestes mares,
feito de outros sonhos e de outros amores,
sei-me outro neste areal,
criança que ainda nada à beira rio
ali bem ao pé da Praia Velha.
por Miguel Raimundo
25/08/2011, 18h45
São Pedro Moel
sexta-feira, setembro 28, 2012
Moíses das Vinganças
Num dia perdido, numa tarde ausente,
Moisés viu uma sarça ardente,
o fogo com ele falou
e a Árvore disse presente.
O fogo coisas de Deus narrou,
destrinçando o Ser do Nada,
a Árvore deu-lhe por armas
um cajado e a Palavra.
Moíses falou a seu povo
com tal cajado de esperança,
o caminho da liberdade
foi forjado nas vinganças.
Durante muitas noites
no Egito não se viveu,
entre as setes pragas dos céus
o filho do Faraó morreu.
O rei dos muitos deuses
abandonou-se à vontade
desse tal fogo ardente,
em busca de nova verdade.
A meio caminho já iam
Moisés, seu povo e um cajado sagrado
Faraó de ideias mudou
armando exército irado.
Dizem que o mar estremeceu,
ante a Palavra de Deus,
ficando vermelho do sangue
de quem inocente morreu.
Entre trovões e geada
Moisés subiu no monte
trazendo nova lei sagrada.
O povo claudicou na liberdade conquistada
adorou bezerro d'oiro,
esquecendo a Fé antiga, a verdade sagrada.
Moisés com seu cajado
trouxe nova tormenta
ao povo por deus amado.
Mil noites no deserto
mil dias de perdição
e diáspora eterna
longe da salvação.
Assim, Moíses que trouxe
nova aliança,
em arca de ouro forjado
foi ainda,
Mosés das vinganças,
de uma ira a
Deus consagrada.
por M'alak N'aura
07.2012
quarta-feira, setembro 26, 2012
A raiva que Deus me deu
A raiva que Deus me deu
é assassina
dá-me vontade de esganar,
de encher o mundo de quinina.
A raiva que Deus me deu é o dilúvio
sob a forma do fogo eterno,
mas sob a forma da poesia
esta raiva será alegria,
nas mãos de um povo novo.
A raiva que Deus me deu é o Diabo,
é um demónio pleno com a força dos séculos,
é um vento que se alevante para combater os homens.
A raiva que Deus me deu veio de Jesus,
na sua força brutal,
antes morrer por tua cruz.
A raiva que Deus me deu cresce-me no ventre,
faz-me doente, obriga-me a perorar ao relento.
Esta raiva animal é promessa
sagrada de um amanhã a cantar.
@ Raimundo Mazorro
11/12/2009
sábado, julho 07, 2012
o Fado dançou na rua
o Fado dançou na rua
num dia assim,
no meio da chuva muda,
e da desgraça, enfim.
o Fado cantou na esquina
de uma sorte incerta,
quando um povo inteiro
se levantou contra a morte certa.
o Fado saiu à rua
banhado de sangue
e na esquina do Tempo
lutou exangue.
o Fado cantou na rua
de cravo ao peito,
ao som da vontade inteira
de um povo feito.
num Maio limpo culpas
o Fado veio,
vingar a sina maldita
dos ditadores.
nos olhos de cada um
trouxe uma esperança imensa
para além das tristezas
e dos traidores.
o Fado dançou da rua
num dia assim
como uma Mulher nua
que se vende, enfim.
no meio do Fado persiste
o futuro encoberto
por esta névoa imensa
que nos assombra, triste.
o Fado que veio da rua
chegará ao fim
como uma criança muda
que chora, enfim.
por Miguel Raimundo
23/06/2006, 3h30
segunda-feira, junho 11, 2012
Miragens de Luar
Que irmãos são estes,
que lhes conheço o linguajar?
Que gente é esta...
com franqueza no olhar?
Quem são estes mouros
aqui aportados,
com esperanças de vida,
com olhos de luar?
Que sonho é este de
paz prepétua entre mundos,
que me perturba e me faz suspirar?
Num jardim encantado, entre a terra e o mar,
o sol põe-se ao longe
levando consigo meu sonhar,
de concórdia entre os homens
e de miragens de luar.
Miguel Raimundo
?/03/2011, 22h??, Getafe
terça-feira, junho 05, 2012
Ideal das mãos livres
À luz de uma vela que se esgota
sentes que este é o tempo falado por Salomão,
de pegar em armas contra os tiranos
e ir construir novos homens, pela contínua evolução.
Não temes o sangue, temes só a morte vã de um teu irmão.
É o tempo de transformar em armas nossas palavras,
nossos gestos ou velhos abraços, lutando pelo Mundo Novo,
com voz de povo, com paz no coração...
é tempo de reinventar, fazer como no Islão.
Criar de mãos vazias nossa encantada revolução
é bem tempo de sonhar e, sobretudo, tempo de dizer: não!
O verbo é a nossa força, dos poucos soldados faremos multidão,
só podemos triunfar nesta luta sem idade,
por casa, por paz, por pão... e pelo ideal maior de liberdade.
por Miguel Raimundo
Santarém,22/12/2011 (19h45)
segunda-feira, abril 09, 2012
Saudação à Greve Geral
Camaradas unidos jamais seremos vencidos,
gritemos de novo a nossa oração,
em prol do presente e dos filhos que aqui estão,
cantemos de novo contra a opressão.
O caminho é tranquilo, a luta traz a solução
a greve é nossa arma e tem de geral
tem de ser sem tempo e de verdade nacional,
temos parar um momento, todos sem excepção, pensar que em cada cidadão
nós temos um irmão. Em cada trabalhador
há um desejo comum de uma vida melhor.
por isso faz greve: na vida árdua, no trabalho, na manifestação...
contesta a injustiça desta nossa condição.
Onde está a crise dos que nos roubam milhões à hora? Essa é questão brutal,
sem qualquer resposta, nem a das leis do Capital.
RM
22/03/2012, Santarém/Lisboa
gritemos de novo a nossa oração,
em prol do presente e dos filhos que aqui estão,
cantemos de novo contra a opressão.
O caminho é tranquilo, a luta traz a solução
a greve é nossa arma e tem de geral
tem de ser sem tempo e de verdade nacional,
temos parar um momento, todos sem excepção, pensar que em cada cidadão
nós temos um irmão. Em cada trabalhador
há um desejo comum de uma vida melhor.
por isso faz greve: na vida árdua, no trabalho, na manifestação...
contesta a injustiça desta nossa condição.
Onde está a crise dos que nos roubam milhões à hora? Essa é questão brutal,
sem qualquer resposta, nem a das leis do Capital.
RM
22/03/2012, Santarém/Lisboa
sexta-feira, março 02, 2012
saudades do Ribatejo
Nestas ruas, nestas vielas
existe a sombra do que fui,
um ser antigo que procuro
na senda do meu sabor a terra.
Encanta-me esta Salvaterra,
será dos seus modos simples?
Misturo-me na singela sabedoria,
das ruas estreias.
Encanta-me esta Salvaterra,
será um fado dos magos das velhas lendas?
ou tão simples alento
destas estórias que vivem, ainda, aqui com suas gentes?
Respiro neste além do Tejo
o mesmo ar bravio dos toiros,
me vejo correndo livre sob o mesmo sol
é a largueza da campina
junto ao rio que me fascina
com feitiço das memórias.
Será pelo tamanho de uma alma
ou pela sinceridade de sua beleza
que se medem os homens?
por Miguel Raimundo
22/12/2011 (16h30)
Viagem Salvaterra de Magos/Santarém, Paul de Magos
Imagem:
A Lezíria do Tejo
© Joaquim Leitão
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
três quilos de erva boa com dose e meia de poesia.
a todos os injustiçados apodados de "correios de droga"
e por nome de pai te chamaram Norte.
Do tempo dos sorrisos,
na caixa do fazer de conta,
ninguém se lembra ou quer pensar,
são os fariseus do prozac
que a primeira pedra te vão atirar.
Deixaste teu mister,
de fazer rir e de querer sonhar,
por outros velhos negócios, talvez,
fosse por sorte ou por azar.
Prendem-te em terra estranha,
com o crime de trazer luar,
aceitas tuas algemas
e ninguém te as sabe protestar!
Pior que ópio da papoila é a doença alma!
A droga da alegria, a verde maconha dos montes,
vale mais que qualquer "tia"
sem verdade, sem horizontes.
No ópio de cada dia, este povo insano,
"curte suas mocas", entre as "trocas e baldrocas"
dos que vendem a alma ao capital,
salvemos a liberdade: fumemos pela verdade!
RM
Santarém, 17/02/2012, 7h12
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
Saudade da cumplicidade dos sorrisos (ou As máscaras de cada dia)

Éramos jovens, rebeldes porventura,
tomávamos ópio e outras drogas para sorrir,
entretendo a vacuidade do Ser.
Nesses néctares todos do mundo,
na embriaguez da nossa alma,
procurávamos um prazer alto e profundo,
tão certo como o sentir dos poetas, tão fatal como a verdade,
sem quaisquer cedências a saberes antigos ou à sensata calma.
Sem amo, sem lei, sem regras
a amizade fluía no tempo eterno
do segredo da partilha,
entre corpos unidos no suor,
entre copos bebidos com clamor,
ficaram glórias nossas,
memórias sagradas que nem sabemos contar.
Passou essa Era das Estórias,
das rodas na taberna e da cor das amizades.
Evolou-se em baforadas a época de tais fumos
de charros bem enrolados sobre vãs glórias
de o fazer, entre outras fábulas e outros heróis.
Sumiram-se, no jade frio de nossas máscaras, os sorrisos cúmplices,
esqueceram-se noitadas de académico labor,
ou de outras faculdades, que uns tomam por luxúria e outros sabem puro amor.
Agora que crescemos a nossa droga é o tédio,
servida em pequenas doses de comprimidos para dormir.
Se antes buscávamos o prazer, agora queremos não pensar, nem sentir...
Engolimos estes analgésicos para o espírito,
sem cuidar na nossa alma, para irmos morrendo devagar
entre saberes antigos, com sensatez e calma,
feitos de medicamento com rotinas diárias,
sem Vontade, sem qualquer Mistério para o porquê de existir!?
Crescer neste "mundo dos senhores",
com estes falsos deuses das ciências,
com torturas, com horrores,
é aprender a hipocrisia,
das Máscaras de Cada Dia.
Crescer assim, é ser douto no velhaco evangelho antigo:
"odeia o próximo como a ti mesmo,
nada estimes para além das riquezas que acumules".
(No escuro, em momentos ténues,
entre o Natal e o meio dia,
assalta-nos a esperança:
porque não resgatar essa alegria?
Porque não voltar a esse sorriso de outrora
que nos insuflava de vida e do prazer do agora?
Para quando rasgarmos as máscaras?
Para quando de novo proclamarmos,
por cada um, por todos, o prazer por liberdade?)
@ Miguel Raimundo, 26/12/2011 (?h??) e 13/02/2012 (22h18)
Imagem retirada de:
domingo, janeiro 22, 2012
Revolta de acordar
(I)
A revolta contra a banca
é uma revolta do povo
a revolta sobre a banca
é acreditar que o Mundo é novo!
Oh banqueiro meu irmão
vem aqui comer meu pão,
que este pão que amassei
é para mim e para o rei...
é para mim é para o rei.
é p'ra quem quiser comer,
este pão que amassei,
não é de comprar, nem de vender.
Que este trabalho que tenho
é de Deus e do Diabo,
mais vale lhes vender a alma,
do que ao banco e ao mercado.
Este pão bem amassado,
é liberdade cereal,
será uma revolta eterna
para acordar Portugal!
(II)
Para acordar Portugal
para levantar o mundo inteiro,
este pão que eu amassei
não se vende por dinheiro.
A revolta que procuro
não tem valor de mercado,
queremos resgatar o futuro,
e viver livres ao fim ao cabo.
A nossa revolta é o trabalho
e o pão de cada dia
a vitória será nossa
por nossas mãos, por nossa alegria.
por Raimundo Mazorro
Viagem Santarém/Chios, 19/01/2012 a 22/01/2012, ?h??
A revolta contra a banca
é uma revolta do povo
a revolta sobre a banca
é acreditar que o Mundo é novo!
Oh banqueiro meu irmão
vem aqui comer meu pão,
que este pão que amassei
é para mim e para o rei...
é para mim é para o rei.
é p'ra quem quiser comer,
este pão que amassei,
não é de comprar, nem de vender.
Que este trabalho que tenho
é de Deus e do Diabo,
mais vale lhes vender a alma,
do que ao banco e ao mercado.
Este pão bem amassado,
é liberdade cereal,
será uma revolta eterna
para acordar Portugal!
(II)
Para acordar Portugal
para levantar o mundo inteiro,
este pão que eu amassei
não se vende por dinheiro.
A revolta que procuro
não tem valor de mercado,
queremos resgatar o futuro,
e viver livres ao fim ao cabo.
A nossa revolta é o trabalho
e o pão de cada dia
a vitória será nossa
por nossas mãos, por nossa alegria.
por Raimundo Mazorro
Viagem Santarém/Chios, 19/01/2012 a 22/01/2012, ?h??
terça-feira, janeiro 17, 2012
Um poeta transparente (noutros mitos de Pessoa)
Tudo o que faço ou medito,
se queda pela metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo nada é verdade...*
Oiço a voz do Universo,
leio profetas e astros,
sei a escrita das estrelas
e navegar com vários mastros.
Faço amores, escrevo poemas,
mas para ficar bem contente,
bebo delitros de aguardente.
Tudo o que faço é poesia,
criando mitos e nada.
Sou o monstro da alegria,
sou o calor da geada.
Fui um poeta transparente,
a beber café na esplanada.
Meu nome era Fernando,
mas como vivia entre a gente,
hoje chamam-me Pessoa.
se queda pela metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo nada é verdade...*
Oiço a voz do Universo,
leio profetas e astros,
sei a escrita das estrelas
e navegar com vários mastros.
Faço amores, escrevo poemas,
mas para ficar bem contente,
bebo delitros de aguardente.
Tudo o que faço é poesia,
criando mitos e nada.
Sou o monstro da alegria,
sou o calor da geada.
Fui um poeta transparente,
a beber café na esplanada.
Meu nome era Fernando,
mas como vivia entre a gente,
hoje chamam-me Pessoa.
18/01/2012
(Viagem Salvaterra de Magos/ Santarém)
© Miguel Raimundo
* Fernando Pessoa, "Tudo o que faço ou medito".
quinta-feira, janeiro 05, 2012
Um país por inventar (ou "Portugal como futuro")
Na encruzilhada do amanhã fica a resposta,
se havemos de aqui ficar sob a borrasca
ou partir, como outrora, tendo o sol por horizonte.
(Nós, filhos mudos dos cravos por plantar.)
Quais Colombos, velhos lacraus, souberam manobrar
mundos e fundos, cheios de manhas, para nos enlear,
traíndo nosso povo, por pouco mais de trinta dinheiros,
sobre nós impõem a canga e os grilhões dos escravos que libertámos.
Da Europa, ensinou-nos o Pessoa, somos tão-só o olhar,
sobram em nós mundos sem fundo entre o aquém e o além dor,
sabermos ainda o caminho para além deste, daquele
ou de um qualquer outro Bojador?
Somos os olhos das crianças acercando-se do luar.
Em nosso sangue vivem gritos dos mortos
à mercê da roda do progresso,
em nossa alma permanece a esperança etérea da Idade da Paz.
Entre o Ir e o Voltar, ouve-se sempre a memória
dos filhos sem pai, das mães sem menino para afagar,
somos nossa Saudade eterna, forjada no fogo sem fim da viagem.
Estamos sempre de malas preparadas, à espera da hora certa para "dar o salto",
à espera do dia certo (que nunca vem) para escolher o barco.
Vagueia a alma portuguesa nos nossos rios ausentes,
(agora que nem somos um país)
Ouvindo-se entre a neblina, o sussurro antigo
do "nosso senhor dos profetas": vós pertenceis ao Mar!
Nestes montes e vales, nestas vilas e cidades,
perpassam-nos murmúrios da vontade de partir,
com medo, entredentes, alguns fantasmas gritam,
talvez insanos, a esperança de ficar,
Deste modo vário, sem se saber porquê,
vive nos corações da nossa gente
um não sei quê de Portugal,
quase como certeza de um outro país por inventar.
Santarém, 05/01/2012 - 17h/18h
© Miguel Raimundo
domingo, dezembro 25, 2011
Memória e vida
a José Gomes Raimundo
com saudades
Olhei as nuvens
e estavas lá
longe dos prantos,
para além da dor.
Espreitei o céu
estavas entre as nuvens.
Aí se via o teu
sorriso matreiro. D
e soslaio, no horizonte,
a tua gargalhada sonora
ecoava nos montes, anunciando
chuva.
Nas sombras e nas árvores
ainda sinto o teu pregão,
de jeito descontraído,
com entertinhas as freguesas;
"- Oh menina veja lá...
Não quer mais nada?
Que tal esta fruta da época?
Que tal esta jarra antiquada?"
Olhei, mas já te perdia,
regressado ao acalento da dor,
de novo levantando a cabeça
para além vida fugidia,
bem ao longe (ou ao perto desses cedros)
ainda te ouvia a pergunta costumeira :
"- Então Zé... quando te casas? Quando será?"
Miguel Raimundo
Romeira, 5/11/2009 (13h05)
terça-feira, novembro 22, 2011
o tropor das horas mortas
sorrateiro e discreto
o cansaço invade os teus dias,
domina o teu corpo,
e parece trazer consigo
a semente de um mal antigo.
subitamente ficas sem vontade
e moves-te só com ânsias secretas
de horas de prostração num qualquer
leito, com qualquer companhia...
tal como o ópio esta fadiga enebria
teus sentidos perturbando razão.
se fosse apenas sono
trazia sonhos no regaço,
mas este tropor das horas mortas
é o vazio
que sobra do cansaço.
(04h30) 19/05/2011, Santarém
© Miguel Raimundo
sábado, outubro 29, 2011
Ousadias ou Da sabedoria das vidas narradas
A tod@s os colegas, amigos e adultos do CNO/ISLA
A todos os que vão agarrando novas oportunidades
Desfrutar esta memória sem a trair,
saber-me dividir
entre tantos e tantas,
saber-me repartir.
Descobrir estas virtudes
para além de mim, para lá de ti,
(por fora da verdade dos sábios)
saber guardar como nossa esta vitória,
no regaço da tormenta,
ancorar veleiro na memória,
enfrentado as ondas do provir,
com olhar matreiro e a cabeça atenta.
Fazer de cada perda uma raíz*
como a canção das promessas sempre quis.
Trazer aqui sabedoria dos avós,
o correr de todas estas horas,
a dor de quando estamos sós,
as alegrias do parto,
enfim o sabor dias,
fazendo dessa vida inteira a nossa Escola.
Este é um triunfo do povo,
que não nos podem roubar!
Este é um saber todo novo
nosso e ainda por desbravar.
Estas são palavras para sempre,
trazendo à vida a nossa gente
numa oportunidade de suor,
que durou a vida toda a labutar!
Vamos, sempre pé ante pé, pelo caminho do futuro!
Somos nós a sageza, somos nós a sensatez...,
Nem dos sábios de aluguer, nem dos arautos do poder
tememos a firmeza, da decisão dura, da facada brutal,
dessa crapulosa ignorância, que nos condena à treva e ao final.
Somos nós o futuro, somos nós a esperança,
da certeza destes homens e mulheres que depois da tempestade
souberam, queda a queda, reinventar a bonança.
Até amanhã noutra idade,
neste ou naquele caminho, agarremos com ganas
qualquer nova oportunidade.
*em "Ser solidário", canção e letra de José Mário Branco
por Miguel Raimundo,
03h15, 29/10/2011
Santarém
segunda-feira, outubro 17, 2011
Ideal Pequeno Burguês (ou das Classes Médias)
Estou doente, doente na alma,
bebendo um vinho velho
que me doí nos ossos.
Olho à volta o mundo do
homens
onde só enxergo destroços.
Estou doente, doem as
ideias.
Aqueço, com mel, chá de
cidreira
para afastar o fel da
melancolia.
A bebida quente só me traz a dormência
e o crescer deste vazio,
desta tamanha ausência.
Estou por fazer, sinto-me
com a força do mundo
e incapaz de acontecer.
Onde estão as florestas
virgens por desflorar?
Quais serão minhas Mensagens
por escrever?
Há tanto que fazer, tanto
por destruir e tudo por recomeçar!
Porque me faltam as mãos?
Porque me faltam as mãos?
Porque ficam meus irmãos
quietos neste tédio,
nesta modorra de
escravidão...?
Sou um que encerra muitos,
sou mais que Legião,
sou germe de liberdade, quero ser rEvolução!
Procuro, à luz negra de teu olhar, ideologias por nascer,
e quedo-me neste lânguido
declamar
de uma doença eterna, tanto
minha como da humanidade,
é um mal que nos tolda o
vigor e nos afecta a vontade.
Estou doente,
que façam os outros as
revoluções.
Eu vou acabar o meu chá
quente.
Imagem:
After Breakfast
Elin Danielson-Gambogi
Óleo sobre tela, Século XIX
© Miguel Raimundo
Santarém, 10/10/2011,(21h27)
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