I
Há muitas eras
antes do tempo e do infinito,
surgiste tu bela e terrível: Ideia Triunfal.
Agora, assaltam-nos
os sonhos libertários,
vives na raiva dos humanos em grave grito.
Liberdade:
intangível e brutal,
terrífica e fatal
para os traidores.
Irmandade: fraterna e universal!
Sem peias nem dores,
de todos ser Um
e como carpinteiros
nos amarmos.
Mulheres, Homens,
só são géneros, nada mais.
Jamais os escravos e as grilhetas! Jamais!
II
Tu, esposa minha, deusa sagrada,
até ao fim do Universo
(em expansão e livre combustão).
Pregas teu Evangelho da Verdade,
de que a existência é tão-só a Liberdade
e nada mais haverá para além dessa certeza.
Ouviram-Te então os degredados,
os miseráveis, os famélicos enjaulados.
Beijaram tuas mãos as irmãs massacradas
por falsos homens, por seres sem escrúpulos açaimadas,
exaltaram-te as violadas e os mutilados que se uniram
no coro de Nossa Revolta.
III
Tomaram com sangue nosso
(— Ó senhora minha)
velha prisão de luxos,
degolaram rei e rainha,
na praça pública,
da Vossa Vitória.
Vieram então
tirânicos e traídos oprimir-nos.
Os teus seios livres vituperaram
os corsos e os imperadores,
mas o povo ausente
nunca se rende!
Em 71 gritamos:
— A Liberdade de quem é?!
— É Nossa!
IV
Chegaste a outras bandas,
demasiado tarde,
teus seios de mãe pátria,
quase secos,
mas agentes na Floresta
animaram lusas almas
de carbono e de fogo vário.
Sangue vermelho
das árvores camaradas,
com seiva exangue
da terra queimada,
fizeram nosso signo divino,
esvoaçar em bandeira verde-rubra.
Venceste em Outubro
os reis de Portugal!
Seu espectro atávico
de tirania ainda paira.
Mas tu dama Fiel à nação nobre
resistes imponente,
com tu seio, livre e Nu
teu sonho presente,
e teus cabelos, (nossos cabelos)
largados ao Vento,
como o homem que
caminha rindo
do espectáculo do mundo.
V
Depois da traição atroz
(de um velho de santa
tumba)
ficou um sabor pírrico no ar.
Voaram do teu leito cravos sem sangue
para nos purificar do cheiro a Terror.
E só sobraram flores tristes?
Com seus profetas falsos,
suas meias verdades,
seus logros de amor.
Aos homens e às mulheres de boa vontade:
Saúde e Fraternidade!
VI
Agora, depois dos “fogos de Verão”,
rezo de novo a Ti,
musa e deusa, de outros heróis.
Peço-te o Mundo livre e justo!
Igualdade, Liberdade, Fraternidade: já!
(Que as promessas também se cumprem!
Oh, deusa de ébano e de marfim,
ajoelha-te no verso deste altar republicano.)
VII
Partes no veleiro para outros horizontes,
que nossa Europa, com velhos olhos de carneiro,
não te quer mais aqui.
(e vem franceses à
minha casa,
renegar e cuspir na
liberdade!)
Vai para onde nunca te viram,
nesses lugares do Islão
leva-lhes um terror novo,
...que és Tu a praga que lhes rogo como Irmão!
leva-lhes teu seio Nu, belo e livre,
leva-lhes teu esgar de evolução
ao deserto da Arábia,
cumprimenta tuas irmãs
com o elixir da liberdade!
E não fiques por aí,
agora que provaste o doce mel de Portugal,
haverás de ser Universal!
Vai-te e planta
Cravos vermelhos de Sangue
para nossa glória,
em toda terra humana,
para lá e para cá da Taprobana!
© Miguel Raimundo
Coimbra, 2006