quinta-feira, novembro 02, 2017

Onde estás Avó? (ou ciclos de Vida)

a Emília Inácia Correia
(hoje nos seus 91 anos)

Avó, onde estás nestas rugas antigas?
Onde se esconde o teu riso nesse corpo de prisão?
"Se sou o teu pai?" - perguntas inocente,
na dor ausente de aí ficares tão perto e tão longe,
tão dentro do castanho desses olhos, que me alumiavam a vida.


Aí, quem dera teres nascido em tempos sem traição.
Lá dizias, com toda a razão dos antigos:
- "Olha que o Diabo, não é diabo por ser Diabo, é Diabo por ser velho!"
Ao fim cabo onde está o nosso deus do perdão?
"Figas, figas que te embasse, tu és de ferro eu sou ace".


À tarde entre a terra, o pó, o cheiro da oliveira flor,
protegias-me dos males do mundo, das maleitas todas,
ensinavas-me a vida e além de tudo o amor,
servido com café quente entre grossas fatias de pão.
Porquê? Porquê? Porquê toda esta dor?
Aí, que se o Deus o fosse, que longa conversa teria, armado  de varaupau
de castigos, de vinganças...., …., de perdão!?


Onde estás neste teu corpo de prisão?
Neste teu medo horrível, confessado em horas sem solidão.
Quem me dera ver-te de novo, bem maior as estrelas em combustão,
gigante, do tamanho do mundo, superior à deriva de qualquer universo,
sempre apegada à terra, em trabalhos e dias,  em vida maior que verso,
cuidando dos bichos, das roupas, das agruras dos teus.
Aí, como admiravas as letras que nunca cheguei ensinar-te...
em troca de todas as contas que me fazias de cabeça,
com precisão computacional, sem mais auxílio que teu saber.
O saber ancestral, maior que todos os compêndios,
porque da terra viemos e lá haveremos de voltar,
porque da terra nos levantamos do chão.
Ondes estás tu nesse corpo de prisão?
Até domingo Avó! Até à nossa redenção.  
 
9/06/2015 (19h15)
Viagem Santarém/Peso da Régua/Lamego

© Miguel Raimundo

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