quinta-feira, junho 12, 2025

200 e tal no avião e 7 do curdistão

Morreram duzentos e tal de avião,

só sete ou mais do "curdistão",

diz-se: "dez eram portugueses",

outros carneiros, mães e filhos de más rezes.

 

Somos aqui a clamar apenas dos que choram,                                                                 

como se a dor e a morte na China,

fossem menos más que a do zé da esquina.

Na esquina morre o zé, a maria, o abrunhosa,

morre a tua tia e a grávida da murtuosa,

 

E já não há anjos, nem gritos, não há padre

nem alquimia, nem missa do sétimo dia,

há todo um coro de aflitos:

“hoje morre-se mais do que se morria!!”

 

Ah! Se soubéssemos quantos morreram no bantustão,

nas esquinas da guerra, nas sombras da traição,  

quantos especialistas, quantas parangonas,

a cantar os vivos e os mortos de Alfarrobeira,

três dias deixados no campo a ser comidos pelo cão.  

 

Gaza não mora aqui, nem sequer o Curdistão,

tudo é jogo de mais bandeiras, tudo vale outro cifrão.

Venham anjos dos céu gritar ao infinito,

de asas brancas, de rosto roxo, 

de olhar azul maldito,

em cada alma bate um coração,

aplaquem a ira, sosseguem a guerra,

nem ouço quem diz: “vai mas é para tua terra”,

“venham anjas do Senhor levem as suas almas ao paraíso”

 

MR, 12/06/2025 12h-18h80



Fonte: DN, "Acidente aéreo na Índia entra para os 10 mais mortíferos de sempre. Recorde as maiores tragédias da aviação", foto: "EPA/SIDDHARAJ SOLANKI", Diário de Notícias, em: https://www.dn.pt/sociedade/recorde-os-maiores-acidentes-de-avia%C3%A7%C3%A3o-de-sempre


segunda-feira, junho 02, 2025

É Natal, é Natal, .... é cruel… (não) faz Mal?

Fonte da imagem: https://theinfosphere.org/File:Xmas_Story.jpg 

 

É Natal, é Natal,

Morrrem criancinhas

Não faz mal não faz mal

Todas queimadinhas,

Uma perna aqui, outra acolá

E o aquele bracinho de quem será?

 

Tudo bate o pé,

Em Gaza, em Kiev, Cabinda e no Curdistão

Tudo bate o pé

na velha mina, que bonita explosão!

 

Vamos pôr o sapatinho,

A Coca-Coca já o trouxe, mas onde?

a cidade ruiu e campo fugiu.

 

Olha o Pai Natal,

de barbas branquinhas.

Traz o saco cheio de armas fresquinhas.


Adaptação estudantil
Coimbra 2000-2005





domingo, março 30, 2025

Carta de Amor a Florbela

Ser poeta não sina, é maldição,

entre a poesia e a quinina,

escolheste a vida e a paixão

ser poeta é ser mulher...

 

como quem beija uma flor,

este príncipe «de quem e de além dor»

é viver nas trevas da luz, no frio do calor.

fazer da noite o teu eterno dia...

 

fazer da sorte sôfrego azar, na vida buscar a morte,

no seu gentil regaço, como um sorriso 

que se liberta do cansaço

 

ser poeta é Ter aqui nestes versos de ternura,

nunca te deixar morrer em tal verdura,

e ainda para além do tempo, consolar teu sofrimento.

 

© Miguel Raimundo

30/03/2025 (08h00)

domingo, junho 27, 2021

final de Sevilha

em terras de campeador, 

depois de Geraldo o sem pavor,

erguem-se de novo os heróis, 

gritos pátrios sem temor. 


são gente de futebóis, 

em senda de glória e de festa 

mais quente mil sóis, 

a jogar a tanto calor,

na capital da sesta. 


triunfemos sobre os flamengos, 

credores e amigos de outros tempos, 

com grei, paixão e amor, 

na sendo do feito novo, 

como no tempo da aventura 

do mar, da bola e da bravura. 


Vasco Bernardo

27/06/2021, 20h28


sábado, maio 15, 2021

bruxas a comer pão-mole

as pragas rogadas, 

ao redor da mesa,

olhares fugidos,

rancores discretos. 


as bruxa seletas

de verniz e cristal,

as vozes funestas

nas tardes de sol. 


esconjura este mal

de inveja e segredos,

lava este fel


por debaixo dos medos.

amar verdade, a vida ou bem,

bebendo a treva que o mal contém. 


Miguel Raimundo

Santarém 15/05/2021 (01h43)


Francisco Goya
Bruxas no Ar
Óleo sobre tela - 43,5x31,5 cm
1797-1798
Madrid, Colecção Jaime Ortiz Patiño



terça-feira, junho 30, 2020

nas portas do medo.

mundo insano,
mundo pequeno,
aldeia de trevas
sem trevo de trova.
mundo insano,
tecto sem segredos,
palavras e medos

aldeia só nossa,
promessa que canta
amanhã e flores
na terra do nunca?

na terra do sempre
um grito de paz.
janelas de amor
no mundo do medo.
mundo pequeno
capaz de ser grande.
um soco no estomâgo,
janelas de amor
nas portas do medo.

Miguel Raimundo
Santarém 17/04/2020 (1h23, "ano 0 do desastre")

quinta-feira, abril 30, 2020

da guerra e do virus (ou unidos no medo)

como nas trovas de outrora 
o fim, a fome e a peste.
fossem agora as trombetas
fosse enfim o Juízo,
quando virão os cometas?
quando fazer o que é preciso?

e todos unidos no medo, na dor, 
no fitar da morte em segredo.
mesmo assim, insiste a guerra
em não sair do cavalo, 
em não deixar nossa Terra.

e tudo unido no medo, 
tristeza segura na certeza de que hoje 
morreu alguém mais sozinho do que ontem,
quase como se antes de um segredo,
nunca morresse ninguém...

pudesse a fome sumir, pudesse a guerra acabar?
tudo fica mais perto, tudo ficava mais bem,
como aos vivos nos convém, 
nessas cores dos arcos-íris, 
nessa vontade da vida
enfim... a morte, a peste pandémica
todos unidos no medo, todos sofrendo a dor, 
para quando toda essa cor?
todos e mais todas unid@s no amor. 

(c) Miguel Raimundo, 
Santarém (PT), 6/04/2020


O Triunfo da Morte
Pieter Bruegel, "o Velho",
c. 1562, óleo sobre madeira
Museu del Prado (Madrid, ES)


terça-feira, novembro 05, 2019

Peregrinação a Fátima por Damasco

Na estrada de Damasco somos todos
pecadores singelos de pouca fé,
perante a visão do outro em esplendor
descubro novo Deus feito de amor.

"Es tu aquele que é?"
pergunta 'inda a dúvida da razão,
sem querer escutar ao nazareno
a verdade da montanha e do sermão.

a todas(os) tratremos por irmã(o)
sem idade, sem peleja, sem talião,
no natal desta manjedoura
todos nascemos de mulher.

seja à mãe do profeta justo feito Deus
a nossa secreta e singela confissão.
seja à mãe de mulheres e de homens feita Deus(a),
a nossa apócrifa e verdadeira peregrinação.

Miguel Raimundo
12/05/2019, 10h58 (Santarém) 


A Conversão de São Paulo  de Domingos António Sequeira
Óleo sobre tela,  Século XVIII, 126 cm x 165 cm, Casa dos Patudos Museu de Alpiarça (Alpiarça)

sábado, setembro 21, 2019

poema de me (ch)amar Fernando


só de me lembrar de ti,
sei que não sou eu.
sonho de todos nós,
permaneço aqui, à espera.

quando voltas?
eu podia amar-te, como António,
podia ser a alma plena,
pequena, com toda calma,
se não houvesse outros futuros.

ainda ontem (ou seria há sete anos?),
sonhei com nós os cinco
(o Botto não apareceu...,
o Alexandre tinha mais que procurar,
o Mário já tinha morrido,
faltavam-nos mulheres,
sempre te fenecem as mulheres,
nos planos infinitos).

ficámos ali tranquilos,
no cais do comboio,
sem espera, sem nevoeiro.
na outra banda do Ser
sentindo como o universo vasto
fica assim aninhado
num ponto qualquer.
«quando o mar se cumprir
e o sol acordar.»
(disseste tu, ou não?
por certo não foi o Alberto.)
dei-te um beijo demorado
e segui o meu caminho
para a outra banda do agora.


Miguel Raimundo
02/01/2015 (16h04)


Foto: comboio na Estação de Santarém
Wikepédia, Wikimedia Commons

sexta-feira, abril 12, 2019

estórias da Capuchinho

a estória é tão antiga
como tempo da memória.
no bosque fica a casinha,
vive o lobo,
passea a criança
e dorme a velhinha.

se fosse o bicho amigo
e se estranhos não houvesse?
cuidados sempre a mãe teria
estremosa em seus conselhos,
numa voz de melodia.

nas velhas veredas do conto
parou a criança a apanhar violetas
bolos, mel e flores,
atraem os velhos odores,
onde os estranhos são leitores
e as meninas são poetas.

quem leu tudo aprendeu?
e ficou o caçador a meio caminho
pois se os estranhos são os poetas
e as meninas são leitores
nas palavras lobos se escondem,
entre mel, bolos e flores.

Miguel Raimundo
12/04/2019, 20h39 (Santarém)
Imagem do filme 
A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves)
realizado por Neil Jordan, 1984


domingo, junho 10, 2018

a Deus, "Pai-nosso"


a d. António Francisco Marques 1927-1997)
I Bispo de Santarém

por mão de minha mãe,
vi o milagre em Vossa luz,
esse resplandecer eu recussei,
por vergonha, por lucidez,
por medo talvez....
de ser a verdade Vossos castigos,
Vossa férrea lei.

lia os velhos escribas com sofreguidão,
(a mente, o juízo e a paz toldei,
acometido por todo o mal em convulsão
como uma voz dos tempos me esfaqueado
em ventos mil, em sede vil.)
procrastinei a vida no "livro da revelação",
esqueci a verdade simples de um "sagrado coração".

no verso desta dúvida sacrifico o meu perdão,
(a Vós pelos séculos de escravidão!),
pois se a fé apenas não me salva
ainda penarei por minhas falhas em boas obras,
assim, de tentação em tentação escolho o pecado:
como se cumprisse fatal destino aziago.

E agora? Clamo sempre a Vós,
confessando no escuro a minha dor,
as minhas costas voltadas ao amor,
Clamamos a Vós, quase apenas na aflição
e ao Filho crucificado pelo Pai-Nosso
rosto de nossa dor, nessa secular paixão.
esquece-mo-Vos nas horas certas de "dar e ficar contente". 
procuro, na pobreza deste verso,
renovado, singelo e terno baptismo,
almejando a amargurada, mas plena, comunhão.

Miguel Raimundo 
Natal/2017, Santarém

[Imagem "Cristo negro", pau preto(?) Brasil (?),  foto do autor]




sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Tiquetaque


corrupio de formigas
num vão escada
percorrendo incessante
a vacuidade
do segundo.

corrupio transparente
de horas vãs,
com tarefas urgentes
ao café da manhã.

corrupio de andorinhas
de outras terras
distantes,
que te olham com o desdém
e a placidez dos viajantes.

corrupio preto e branco
das horas em que morreste,
tempos frios e incessantes
de dias que não regressam.
corrupio de lamentos
nas 12 voltas dos ponteiros.
© Miguel Raimundo

18/06/2009 (02h37), Santarém 




Imagem:




terça-feira, janeiro 09, 2018

Velho ou Novo "Boi da cara preta"

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Sossega este menino
Ele não tem medo de careta.

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Deixa viver este menino
Ele não tem cara de vampeta.

Boi, boi, boi
Boi do Piaíu
Sossega esse menino
Que ele já vai dormir.




Adaptação de Miguel Raimundo 
da cantiga de embalar tradicional brasileira
 "Boi da cara preta" 
recolhida e musicada por Dorival Caymmi

09/01/2018 (1h00),Santarém (Portugal) 

Imagem: "Bull"

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Confissão

em memória de Dionísia Correia Noras Carniça
Porque te foste assim
tão tristemente?
Porque não voltas mais
à tarde naquela eira...?

Porque não me cantas, 
docemente, cantigas de adormecer…?
Onde estará aquele morcego quieto
com que me embalavas o medo de viver?
Porque não te deixavam morrer…?
(Terei eu tanto medo de Te ver?)
Doce, eterna, suave melancolia
que na luz do dia me trouxe teu espectro de volta
com a lembrança dessa morte sem razão.

Na tua mala de couro vive
um ser que está no Céu
à direita  da  Mãe de Deus,
sempre a cantar e a velar  por nós.

Choro a tua ausência em segredo,
vivendo no medo de
quase de nem ter o meu perdão.
Agora, ainda que triste,
já devo  celebrar  a alegria 
de te saber reencontrar aqui,
no verso deste luto,
secreto  e permanente.

Porque 
me ensinaste a vida e depois morreste* 
na quinta-feira da Paixão?

Peço, rogo, imploro,
por tudo e por nada ao mesmo tempo,
que Essoutro me faça crer na redenção,
Vive agora com Ele eternamente
à luz das estrelas do teu Ser.*


* paráfrase de "Canção com Letras" poema de Manuel Alegre, 
musicado por Fernando Pais Abreu, Tó Campos 
(Canção para um amigo que morreu na guerra), 
cantado por Adriano Correria de Oliveira
video: "Canção com lágrimas" Adriano Correia de Oliveira

*paráfrase de "Cristo" poema de José Régio em
Poemas de Deus e do Diabao

©Miguel Raimundo
Coimbra, 05/05/2006 (16h)

terça-feira, dezembro 12, 2017

O Jogo da Sueca


A sueca, abandonada sobre a mesa,
sorri.
De soslaio promete-te
vãs glórias e fortunas.

­— O trunfo é copas!
 grita alguém, ao fundo do bar,
levantando-se sozinho,
sem rival e sem par.

Entre o café aromático
e a náusea do cigarro,
soltou-se a Manilha
fez parelha com um Ás:
— Ai… que nem de livrar és capaz!

Abandonada sobre a mesa a sueca
adormeceu,
sonhando baixinho
promete-nos mais jogos e prazeres.

Finda a noite,
ainda um Joker trapaceiro
pisca o olho àquela Dama
— mas isso são outros tantos,
já nem são cartas deste baralho.  

© Miguel Raimundo
Foz do Arelho, 14/08/2007 – 03h33
Imagem:
"Fábulas" desenho de Cátia Figueirinhas, 2011

domingo, dezembro 03, 2017

Fábulas de Embalar


I (fábula)
Nas sombras,
por entre segredos,
escondem-se
bruxas e duendes.

Na cadência dos dias,
nas ausências do tempo
abundam fadas e moiras por encantar.
Nos sonhos de crianças
vivem velhos faunos e centauros,
de outras lendas e terras.

Nestes versos repousam
memórias de fábulas adormecidas
à espera de alguém
que acorde e as comece a contar.


II (encanto)

Numa floresta encantada,
entre duendes e fadas,
vive um pastor de memórias.

Guardador de velhas estórias,
ele apascenta-as,
como se ovelhas fossem
e o seu rebanho de lendas
vive, revive e morre
nas almas dos narradores.


À noite, junto à fogueira,
o velho pastor empresta o cajado
a uma plêiade de contadores,
desde a criança travessa
ao sisudo escritor.

Na frondosa floresta,
sobra só uma estória por contar,
a do pastor de fábulas
e de sonhos cor de mar.


22/03/2007 (20h40), Póvoa da Isenta/Santarém
por © Miguel Raimundo

Imagem pormenor de:
Vista do Tibre e da Campania Roman, a partir do Monte Mario
© William Linton, óleo sobre tela 1829

terça-feira, novembro 28, 2017

Bia, a das minhas lendas



a A. B.
Vejo em ti outras histórias
por contar.
Agora são velhas memórias,
doutro Eu num tempo
que já foi.

Eterno adolescente
à procura daquele
mágico, alquímico
e filosofal momento de
oferecer uma flor,
de roubar um beijo…

Tu não és, nem serás
a minha ilusão infantil,
mas eis que aqui,
no seio do verso,
reencontro-me
comigo através de ti.

Quem usa quem, afinal?
O poeta ou a musa?
A ideia ou o animal?
Depois das máscaras e dos jogos,
depois desses olhares nocturnos,
que restará?

O futuro de uma estória
é sempre um sorriso sedutor.

Coimbra (Sé Velha), 27 de Julho de 2006, 20h39
© Miguel Raimundo 


Imagem:
Safo (c. 630 a 570 a. C.) 
representada em fresco de Pompeia, c. 65 d.C.

terça-feira, novembro 21, 2017

Regressos

Adiada fica a vida num
regresso a outro mar.

Mar revolto de ansiedades,
com saudades dessa viagem,
em outros tempos de folgar…

Amores que desvanecem,
amigos que permanecem
ou ventos que nos levam a voltar.

Nesta viagem não há paragens,
apenas regressos fugidios
e olhares pálidos,
com desejos secretos
de retornar às aventuras,

noutros tempos, noutros mares.  


24/10/2006, c. 19h00
Viagem Santarém/Coimbra
©Miguel Raimundo
Imagem:
"Coimbra et le fleuve Mondego" Crédit photo: @Leandro Neumann Ciuffo – Flick




segunda-feira, novembro 13, 2017

Olhares d’Alma



Olhos verdes de lembranças
doutras eras, doutras danças.
doutros tempos e vontades,
olhos tristes de saudades.

Olhos doces de ternuras,
doutras histórias e aventuras,
de velhos sonhos e segredos,
olhos meigos e sinceros.

Olhos frios e traidores
doutras lutas e vinganças,
de paixões esquecidas e de amores,
olhos verdes de lembranças.



Olhos tristes de saudades,
de amantes ou de amizades,
de loucuras e prazeres,
olhos ousados das mulheres.

Olhos ternos, mas cansados,
doutros medos, doutras vidas,
doutras terras, doutros versos,

olhos vivos e castanhos.  

7/03/2007 (22h40) Santarém
© Miguel Raimundo

Imagem:
"Floresta que vê, floresta que ouve", desenho
Hieronymus Bosch, c. 1500