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terça-feira, setembro 24, 2019

barco à deriva / campo de refugiados

hoje morri em Saná
tinha dois anos e tal,
tu cantas a dor
dos que vivem menos mal.

hoje morri em Damasco
tinha seis anos e tal.
tu celebras o carrasco
dos que vivem menos mal.

hoje sobrevivo neste barco
entre o vasto mar e o charco.
tu compras tudo barato
vidas, casas, carros, sapatos.

hoje subi à velha cruz,
sou puta, meu pai Jesus.
tu rezas sempre prostrado 
ao Deus e ao vizinho do lado.

hoje mataram-me em Tripolí,
tinha sete anos e tal,
tiram-me imensas fotos
como se fosse tudo fatal.
todos vivem bem aqui,
entre os barcos e os papeís
de todos os mundos crueís
dos morrem menos mal.

Miguel Raimundo, 
Santarém, 07/09/2019 (1h00)


quinta-feira, janeiro 05, 2012

Um país por inventar (ou "Portugal como futuro")


Na encruzilhada do amanhã fica a resposta, 
se havemos de aqui ficar sob a borrasca
ou partir, como outrora, tendo o sol por horizonte.
(Nós, filhos mudos dos cravos por plantar.)

Quais Colombos, velhos lacraus, souberam manobrar
mundos e fundos, cheios de manhas, para nos enlear, 
traíndo nosso povo, por pouco mais de trinta dinheiros, 
sobre nós impõem a canga e os grilhões dos escravos que libertámos. 

Da Europa, ensinou-nos o Pessoa, somos tão-só o olhar,
sobram em nós mundos sem fundo entre o aquém e o além dor
sabermos ainda o caminho para além deste, daquele
ou de um qualquer outro Bojador?

Somos os olhos das crianças acercando-se do luar. 
Em nosso sangue vivem gritos dos mortos
à mercê da roda do progresso,
em nossa alma permanece a esperança etérea da Idade da Paz.

Entre o Ir e o Voltar, ouve-se sempre a memória 
dos filhos sem pai, das mães sem menino para afagar,
somos nossa Saudade eterna, forjada no fogo sem fim da viagem.
Estamos sempre de malas preparadas, à espera da hora certa para "dar o salto",
à espera do dia certo (que nunca vem) para escolher o barco.

Vagueia a alma portuguesa nos nossos rios ausentes,
(agora que nem somos um país)
Ouvindo-se entre a neblina, o sussurro antigo
do "nosso senhor dos profetas": vós pertenceis ao Mar!

Nestes montes e vales, nestas vilas e cidades, 
perpassam-nos murmúrios da vontade de partir, 
com medo, entredentes, alguns fantasmas gritam, 
talvez insanos, a esperança de ficar,
Deste modo vário, sem se saber porquê, 
vive nos corações da nossa gente
um não sei quê de Portugal, 
quase como certeza de um outro país por inventar.


Santarém, 05/01/2012 - 17h/18h
© Miguel Raimundo