(I) olhares de menina
olhares de menina, facas de algoz,
medo e quinina, ao ficarmos a sós.
desejo e vingança, farsa e mudança,
se todo o/a profeta for essa criança?
se mãe de Maomé fosse de esperanças?
também lhe batias no quarto
ainda lhe mutilavas o seu rosto?
sempre lhe darias o desgosto.
fogem os incréus dos saduceus,
longe das promessas, sem vida
sem sonho, só a morte: sem Deus.
(II) preces de Fátima
estudantes de ciência do sagrado
vós que entregais alma ao criador,
sabiéis que Moamé morreu de amor?
imãs ocultos das montanhas,
padres loucos das patranhas,
ontem, servos do Senhor e do seu gado,
ouvi a voz de Fátima na prece à sexta-feira:
"não nos ates mais à cabeceira!
não no tires à noite a nossa voz,
feito de suor, de sangue e de ternura
não nos tires de dia a nossa face,
feita da luz, de Deus e de verdade".
(III) umma
sentado à sombras das(dos) profetas,
sobra loucura nas vozes dos(das) poetas.
submissão ao anjo ou ao destino?
vontade de nunca trair os olhos do menino.
que ensinais vós para além da guerra?
a seca, as ânsias, e um xaile negro sobre a
terra?
lembrem a voz Issa martirizado: "sede
verdedeiro,
o pecado, a vergonha, o orgulho, a mentira,
calha a todos,
não subirá montanha imculada, quem a pedra
possa atirar primeiro."
morreram homens, mulheres e os(as) profetas,
na esperança de um amor maior que o dos(as)
poetas,
e vós que leis no livro o grande poema
só trazes ao lume novo a mesma cena:
a dor, a morte, o medo de há mil anos,
sonhando sobre toda a terra novos-velhos
amos.
estudantes de ciência do sagrado,
vós que entregais alma ao criador,
sabíeis que o amor não é pecado?
vós que professais centelhas desta Fé
escutai no deserto a voz daquele que É:
na água dos caminhos bebe a verdade
todas/todos somos de Deus uma metade,
e a outra tem por nome liberdade.
Naguib N'aura
(1434 H / 2021-17-08, 7h44)

