quinta-feira, dezembro 21, 2017

Confissão

em memória de Dionísia Correia Noras Carniça
Porque te foste assim
tão tristemente?
Porque não voltas mais
à tarde naquela eira...?

Porque não me cantas, 
docemente, cantigas de adormecer…?
Onde estará aquele morcego quieto
com que me embalavas o medo de viver?
Porque não te deixavam morrer…?
(Terei eu tanto medo de Te ver?)
Doce, eterna, suave melancolia
que na luz do dia me trouxe teu espectro de volta
com a lembrança dessa morte sem razão.

Na tua mala de couro vive
um ser que está no Céu
à direita  da  Mãe de Deus,
sempre a cantar e a velar  por nós.

Choro a tua ausência em segredo,
vivendo no medo de
quase de nem ter o meu perdão.
Agora, ainda que triste,
já devo  celebrar  a alegria 
de te saber reencontrar aqui,
no verso deste luto,
secreto  e permanente.

Porque 
me ensinaste a vida e depois morreste* 
na quinta-feira da Paixão?

Peço, rogo, imploro,
por tudo e por nada ao mesmo tempo,
que Essoutro me faça crer na redenção,
Vive agora com Ele eternamente
à luz das estrelas do teu Ser.*


* paráfrase de "Canção com Letras" poema de Manuel Alegre, 
musicado por Fernando Pais Abreu, Tó Campos 
(Canção para um amigo que morreu na guerra), 
cantado por Adriano Correria de Oliveira
video: "Canção com lágrimas" Adriano Correia de Oliveira

*paráfrase de "Cristo" poema de José Régio em
Poemas de Deus e do Diabao

©Miguel Raimundo
Coimbra, 05/05/2006 (16h)

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