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segunda-feira, abril 16, 2018
sexta-feira, fevereiro 16, 2018
Tiquetaque
corrupio de formigas
num vão escada
percorrendo incessante
a vacuidade
do segundo.
corrupio transparente
de horas vãs,
com tarefas urgentes
ao café da manhã.
corrupio de andorinhas
de outras terras
distantes,
que te olham com o desdém
e a placidez dos viajantes.
corrupio preto e branco
das horas em que morreste,
tempos frios e incessantes
de dias que não regressam.
corrupio de lamentos
nas 12 voltas dos ponteiros.
© Miguel Raimundo
18/06/2009 (02h37), Santarém
Imagem:
quinta-feira, dezembro 21, 2017
Confissão
em memória de Dionísia Correia Noras Carniça
Porque te foste assim
tão tristemente?
Porque não voltas mais
à tarde naquela eira...?
Porque não me cantas,
docemente, cantigas de adormecer…?
Onde estará aquele morcego quieto
com que me embalavas o medo de viver?
Porque não te deixavam morrer…?
(Terei eu tanto medo de Te ver?)
Doce, eterna, suave melancolia
que na luz do dia me trouxe teu espectro de volta
com a lembrança dessa morte sem razão.
Na tua mala de couro vive
um ser que está no Céu
à direita da Mãe de Deus,
sempre a cantar e a velar por nós.
Choro a tua ausência em segredo,
vivendo no medo de
quase de nem ter o meu perdão.
Agora, ainda que triste,
já devo celebrar a alegria
de te saber reencontrar aqui,
no verso deste luto,
secreto e permanente.
Porque
me ensinaste a vida e depois morreste*
na quinta-feira da Paixão?
Peço, rogo, imploro,
por tudo e por nada ao mesmo tempo,
que Essoutro me faça crer na redenção,
Vive agora com Ele eternamente
à luz das estrelas do teu Ser.*
* paráfrase de "Canção com Letras" poema de Manuel Alegre,
musicado por Fernando Pais Abreu, Tó Campos
(Canção para um amigo que morreu na guerra),
cantado por Adriano Correria de Oliveira
video: "Canção com lágrimas" Adriano Correia de Oliveira
*paráfrase de "Cristo" poema de José Régio em
Poemas de Deus e do Diabao
©Miguel Raimundo
Coimbra, 05/05/2006 (16h)
terça-feira, dezembro 12, 2017
O Jogo da Sueca
A
sueca, abandonada sobre a mesa,
sorri.
De
soslaio promete-te
vãs
glórias e fortunas.
— O trunfo é copas!
grita alguém, ao fundo do bar,
levantando-se
sozinho,
sem
rival e sem par.
Entre
o café aromático
e
a náusea do cigarro,
soltou-se
a Manilha
fez
parelha com um Ás:
— Ai…
que nem de livrar és capaz!
Abandonada
sobre a mesa a sueca
adormeceu,
sonhando
baixinho
promete-nos
mais jogos e prazeres.
Finda
a noite,
ainda
um Joker trapaceiro
pisca
o olho àquela Dama
—
mas isso são outros tantos,
já
nem são cartas deste baralho.
© Miguel
Raimundo
Foz do Arelho, 14/08/2007 –
03h33
Imagem:
"Fábulas" desenho de Cátia Figueirinhas, 2011
domingo, dezembro 03, 2017
Fábulas de Embalar
I (fábula)
Nas sombras,por entre segredos,
escondem-se
bruxas e duendes.
Na cadência dos dias,
nas ausências do tempo
abundam fadas e moiras por encantar.
Nos sonhos de crianças
vivem velhos faunos e centauros,
de outras lendas e terras.
Nestes versos repousam
memórias de fábulas adormecidas
à espera de alguém
que acorde e as comece a contar.
II (encanto)
Numa floresta encantada,
entre duendes e fadas,
vive um pastor de memórias.
Guardador de velhas estórias,
ele apascenta-as,
como se ovelhas fossem
e o seu rebanho de lendas
vive, revive e morre
nas almas dos narradores.
À noite, junto à fogueira,
o velho pastor empresta o cajado
a uma plêiade de contadores,
desde a criança travessa
ao sisudo escritor.
Na frondosa floresta,
sobra só uma estória por contar,
a do pastor de fábulas
e de sonhos cor de mar.
22/03/2007 (20h40), Póvoa da Isenta/Santarém
por © Miguel Raimundo
Imagem pormenor de:
Vista do Tibre e da Campania Roman, a partir do Monte Mario
© William Linton, óleo sobre tela 1829
terça-feira, novembro 28, 2017
Bia, a das minhas lendas
a A. B.
Vejo
em ti outras histórias
por
contar.
Agora
são velhas memórias,
doutro
Eu num tempo
que
já foi.
Eterno
adolescente
à
procura daquele
mágico,
alquímico
e
filosofal momento de
oferecer
uma flor,
de
roubar um beijo…
Tu
não és, nem serás
a
minha ilusão infantil,
mas
eis que aqui,
no
seio do verso,
reencontro-me
comigo
através de ti.
Quem
usa quem, afinal?
O
poeta ou a musa?
A
ideia ou o animal?
Depois
das máscaras e dos jogos,
depois
desses olhares nocturnos,
que
restará?
O
futuro de uma estória
é
sempre um sorriso sedutor.
Coimbra (Sé Velha), 27 de Julho de 2006, 20h39
© Miguel Raimundo
Imagem:
Safo (c. 630 a 570 a. C.)
representada em fresco de Pompeia, c. 65 d.C.
terça-feira, novembro 21, 2017
Regressos
Adiada
fica a vida num
regresso
a outro mar.
Mar
revolto de
ansiedades,
com
saudades dessa viagem,
em
outros tempos de
folgar…
Amores
que desvanecem,
amigos
que permanecem
ou
ventos que nos
levam a voltar.
Nesta
viagem não
há paragens,
apenas
regressos fugidios
e
olhares pálidos,
com
desejos secretos
de
retornar às aventuras,
noutros
tempos, noutros mares.
24/10/2006, c. 19h00
Viagem Santarém/Coimbra
©Miguel Raimundo
Imagem:
"Coimbra et le fleuve Mondego" Crédit photo: @Leandro Neumann Ciuffo – Flick
segunda-feira, novembro 13, 2017
Olhares d’Alma
Olhos verdes de lembranças
doutras eras, doutras danças.
doutros tempos e vontades,
olhos tristes de saudades.
Olhos doces de ternuras,
doutras histórias e aventuras,
de velhos sonhos e segredos,
olhos meigos e sinceros.
Olhos frios e traidores
doutras lutas e vinganças,
de paixões esquecidas e de amores,
olhos verdes de lembranças.
Olhos tristes de saudades,
de amantes ou de amizades,
de loucuras e prazeres,
olhos ousados das mulheres.
Olhos ternos, mas cansados,
doutros medos, doutras vidas,
doutras terras, doutros versos,
olhos vivos e castanhos.
7/03/2007 (22h40) Santarém
© Miguel Raimundo
Imagem:
"Floresta que vê, floresta que ouve", desenho
Hieronymus Bosch, c. 1500
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